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    Sua decisão de vir pessoalmente administrar a capitania que ganhara do rei moldaria todo o futuro de Pernambuco

    Ao partir do Recife para Lisboa, em 1553, levando consigo seus dois filhos adolescentes, Duarte Coelho Pereira tinha tudo planejado, como de costume. A capitania da qual era donatário ficaria aos cuidados da sua esposa, D. Brites, com ajuda do irmão dela, Jerônimo. Os meninos iriam desasnar frequentando a corte lusitana. E ele, ainda bem disposto, apesar dos 68 anos de idade, levaria suas reclamações ao rei, pessoalmente. Queriam lhe tirar direitos adquiridos sobre as terras que ganhara às léguas, no papel, e conquistara palmo a palmo, com muita luta. Mas o velho guerreiro não se deixaria dobrar facilmente.
    Daquela vez, contudo, as coisas não seguiriam o rumo traçado por ele…

    A TERRA BRASILIS
    Quando pisara em de Pernambuco pela primeira vez, em 1535, Duarte não se assombrara com o clima quente e a opulência da natureza, como a maioria dos europeus. Dos seus cinquenta anos de idade, passara mais de vinte lutando e fazendo negócios na África e na Ásia. Ele estivera em Málaca, em Goa, e em outros sítios que também ficavam no hemisfério sul e na mesma latitude que o nordeste do Brasil, embora do outro lado do mundo. E, portanto, eram muito parecidos. A única novidade fora os arrecifes, aquela fantástica muralha de arenito e coral que facilitava a ancoragem das naus lusitanas e as protegia das inimigas.
    Os nativos também não o impressionaram. Morenos e fisicamente semelhantes a alguns povos orientais, eram, porém, muito primitivos. Mas, como homem, apreciara a beleza das mulheres, que tomavam vários banhos por dia e andavam desvestidas como vieram ao mundo, exibindo inocentemente as suas “vergonhas” raspadas.
    O donatário, porém, era um sujeito sério e viera acompanhado da esposa. Ele não se comportara como seu cunhado Jerônimo, o “Adão pernambucano” que, mais adiante, no seu testamento, declararia ser pai de 24 filhos: oito com a índia Tabira, ou Maria do Espírito Santo, sua primeira mulher; onze com a segunda, D. Felipa de Melo; e mais cinco avulsos; afora os muitos que não assumiria. Duarte só teve, e apenas com D. Brites, seus dois meninos, Duarte e Jorge, e uma menina, Inês, que se casaria muito nova com Jerônimo Moura e morreria tragicamente, na mesma semana que o marido e o filho recém-nascido.

    DECISÃO HISTÓRICA
    Duarte ganhara Pernambuco através do programa das capitanias hereditárias lançado pelo rei D. João III – chamado de “o Piedoso”, porque era muito carola – para resolver o problema da ocupação do Brasil. E, dentre todos os donatários, fora o que melhor se saíra. Não só porque era maduro e experimentado na luta, mas também porque, ao contrário da maioria, viera pessoalmente cuidar do seu lote, que batizara de Nova Lusitânia. Ele chegara aqui de mala e cuia, acompanhado de amigos e de gente da sua terra, o Entre-Douro e Minho. Poderia ter ficado em Portugal, gozando a fortuna que ganhara com muita luta, ao lado da jovem de dezoito anos com quem acabara de casar. Mas, talvez, por ser filho bastardo, quisesse ascender socialmente, e no aristocrático mundo português da sua época, um barão dono de terras valia mais que um capitalista endinheirado.

    MOVIDO A AÇÚCAR
    Assim com as outras capitanias, Pernambuco era uma faixa de sessenta léguas de largura, mais ou menos, começando no litoral e estendendo-se horizontalmente até a linha divisória do Tratado de Tordesilhas, que ninguém sabia onde ficava. Seus limites eram o rio de Santa Cruz, ao norte, e o São Francisco, ao sul. E, na terceira década do século XVI, servia de palco a ferozes batalhas entre franceses e portugueses e seus aliados indígenas, os potiguares e os tabajaras.
    Então Duarte viera, vira e vencera aquela guerra, com ajuda de Jerônimo de Albuquerque. Seu cunhado levara uma flechada no olho e fora capturado por índios numa batalha; mas, em vez se ser comido por eles, conquistara a filha do cacique Arcoverde e casara-se com ela, tornando aquela tribo sua aliada.
    Então, a colonização pudera começar. O donatário fundara a vila dos Santos Cosme e Damião, a primeira de Pernambuco, à beira do rio Igarassu, e passara a distribuir entre os colonos as terras que ia tomando dos nativos. Depois, num local belíssimo, no topo de uma colina, fundara Olinda, que seria sua capital. E, em seguida, o vilarejo do Recife, numa península coberta de mangues na foz do Capibaribe, sem nem um poço de água potável, mas com um porto extraordinário.
    O motor econômico do seu projeto era o açúcar. Um produto de grande valor na Europa e cuja fabricação – uma arte aprendida nas Índias, pelos portugueses – não era novidade por aqui. Desde 1516 havia um engenho em Itamaracá. E o retorno não demorou a chegar, devido à capacidade administrativa de Duarte, que cuidava de tudo detalhadamente. Em Olinda, por exemplo, ele determinara que se preservasse parte da vegetação nativa e se reservassem áreas para uso comum. Mas, também, devido à sua mão forte, porque as pendengas os inimigos a enfrentar não eram poucos.

    As pedras no caminho do donatário

    Os índios, expulsos das suas terras e vendo suas mulheres e filhas sendo violadas pelos europeus, partiam para a guerra sempre que podiam. Ou, sendo obrigados a trabalhar como escravos nos engenhos, fugiam para o mato. Os contrabandistas de pau-brasil, os piratas que infestavam o Atlântico e os degredados portugueses – criminosos cujo castigo era seu envio para o Brasil – causavam um problema atrás do outro. E o rei não facilitava. Duarte, por exemplo, cansara de escrever pedindo-lhe autorização para importar escravos negros da Guiné e a suspensão do despacho de bandidos para a sua capitania, sem ser atendido. Mas nunca esmorecia, era um modelo de firmeza. Chegara a aplicar uma surra no capitão-mor da vizinha capitania de Itamaracá, por ser aquele sujeito incapaz de controlar os degredados que lá se homiziavam, desmoralizando-o e obrigando-o a sair do País.
    O que o ajudava era a grande autoridade concedida aos donatários. Eles podiam distribuir terras ou reservá-las para si, fundar vilas, nomear tabeliães e julgar malfeitos das pessoas de menor categoria social até a última instância (os fidalgos, se condenados por crime de morte, ainda podiam apelar para o rei). Mas essas prerrogativas começaram também a ser questionadas após a instalação de uma governança geral do Brasil, na Bahia, em 1548. Principalmente, a que vedava a entrada de fiscais da coroa nas capitanias.
    “Nessas terras não pode ir provedor-mor, o que me parece um grande desserviço de Deus e de vossa consciência”, assim reclamava ao rei o primeiro governador-geral, Tomé de Souza. E D. João III, que não mexera nos direitos “dos Albuquerque de Pernambuco”, ainda por algum tempo, começara, finalmente, a retirá-los, enfurecendo o velho Duarte. Então, em 1553, ele embarcara para Lisboa, em busca de uma conversa cara a cara com Sua Majestade.
    Lá chegando, porém, aguardara um ano inteiro por uma audiência sempre postergada, e morrera sem ser recebido. Quiçá, de desgosto e tristeza pela desconsideração.
    Apesar disso, o Pernambuco que ele fundara e conduzira por dezoito anos continuaria florescendo, a ponto de Olinda, sua capital, ser chamada de “Cabeça do Brasil” e de “Pequena Lisboa”, nas décadas seguintes.
    É o que veremos adiante, ao tratarmos do filho e sucessor de Duarte, Jorge de Albuquerque Coelho.

    As brasileiras vistas por um europeu

    O florentino Américo Vespuccio, que de tanto escrever sobre o Novo Mundo acabou lhe emprestando seu nome, anotou: “as índias andam sempre nuas e são libidinosas. Não têm nada defeituoso em seus corpos formosos e limpos, nem são grosseiras, como se poderiam supor (…). Uma coisa nos pareceu milagrosa: que entre elas nenhuma tinha os peitos caídos. E as que haviam parido, pela forma do ventre e na estreiteza de certas partes do corpo, as quais, por pudor, não menciono, não se diferenciavam em nada das virgens”.

    A primeira "PPP" (parceria público-privada) do Brasil

    O pequenino Portugal não dispunha de recursos para colonizar o imenso território que chamava de seu. E os franceses insistiam em estabelecer feitorias por lá, de onde traziam pau-brasil, algodão, papagaios, plumas, peles e couros negociados com os índios. Então, em 1534, o rei D. João III resolveu doar grandes lotes de terra a quem se dispusesse a colonizá-los, que seriam herdados pelos seus descendentes. Já o capital para financiar essa empreitada seria fornecido principalmente por judeus expulsos de Portugal pela Inquisição e estabelecidos na Holanda.


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    Seus feitos, cantados no poema Prosopopeia, de Bento Teixeira, publicado em 1601, deram início à nossa fama de valentes

    As dores lancinantes nas pernas, esmagadas pelo pisoteio de um cavalo. A vergonha de ter sido incapaz de proteger seu rei ou de não ter morrido, junto com ele. A humi-lhação de estar prisioneiro, embora não pela primeira vez. Cercado pelos mouros na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, norte da África, no dia quatro de agosto de 1578, o jovem rei português D. Sebastião, “o Desejado”, não se rendera e desaparecera, no turbilhão do combate. E Jorge de Albuquerque Coelho, que lutara bravamente ao seu lado, sofria e preocupava-se com o futuro.
    Ficaria aleijado para sempre, caso saísse dali com vida? O que seria do seu irmão Duarte, também capturado? O que aconteceria com Portugal, cujo monarca não deixara sucessor e levara com ele a melhor nobreza do país? Qual o impacto daquela derrota sobre a sua terra natal? O aperreio de Jorge era justificado. A tragédia de Alcácer-Quibir teria enormes consequências para o Reino. Inclusive para Pernambuco, cuja fama de ser uma “nova Roma de bravos guerreiros”, aliás, começaria com ele…

    A NOVA LUSITâNIA

    Jorge nascera em 1539, quatro anos depois do seu pai, Duarte Coelho Pereira, tomar posse da capitania doada pelo rei D. João III. O donatário desembarcara ao norte, no li-mite com a vizinha Itamaracá, onde já havia alguma povoação. E depois de muito guerrear contra índios e franceses, fundara a vila de São Cosme e Damião, à mar-gem do rio Igarassu. Em seguida, mais abaixo, Olinda, na qual Jorge e seu irmão Duarte vieram ao mundo. E enquanto os meninos cresciam, a colonização se expandia. Ao chegarem à adolescência, ela se estendia até a várzea do rio Capibaribe, com vários engenhos e canaviais implantados num terreno muito favorável àquela cultura. Então, eles partiram para Portugal.
    Em 1553, o velho Duarte fora a Lisboa, reclamar ao rei da retirada de alguns dos seus direitos de donatário. Deixara Pernambuco aos cuidados da mulher, D. Brites, e levara consigo seus filhos para estudar e conviver com a nobreza lusitana. Um ano depois, porém, morrera, sem ser recebido por Sua Majestade. E os rapazes ficaram por lá, aos cuidados dos Albuquerque, seus ilustres parentes do lado materno.
    Em 1560, Jorge e seu mano mais velho, que se tornara o capitão-mor, após a morte do pai, ambos com vinte e pou-cos anos de idade, retornaram a Pernambuco. Na ausência deles, a colonização das terras ao sul, cobertas por uma mata frondosa, havia prosse-guido. E os dois se engajaram com entusiasmo naquele trabalho, que consistia em fazer o reconhecimento das áreas; depois, em expulsar os índios, seus antigos moradores; e, por fim, em ocupá-las.

    PEQUENA LISBOA

    As únicas vias de acesso ao interior daquela região eram os rios, como o Sirinhaém, o Formoso, o Una etc. Jorge chegou a explorar até o São Francisco, no limite sul da capitania. Nas suas margens iam sendo fundadas pequenas povoações que serviam como apoio para a implantação de engenhos, lavouras de mantimentos e fazendas de criação de gado nas redondezas. Assim surgiram Cabo, Sirinhaém, Porto Calvo, Alagoas, Penedo. E, sendo as terras distribuídas pelo sistema de “sesmaria” – ou seja, doadas a quem o donatário quisesse – assim também, naquela época, foram sendo formados grandes latifúndios e fortunas. João Paes Barreto, por exemplo, chegou a possuir oito engenhos no Cabo. E o pó branco neles produzido rendia muito dinheiro.
    O açúcar alcançava preços altíssimos na Europa. Em consequência, a capital pernambucana logo se tornaria a vila mais importante da América Portuguesa, com uma população de mais de vinte mil “almas”. Já nas décadas seguintes, os governadores-gerais do Brasil passariam muito mais tempo lá do que na Bahia. Afinal, a vida na “Pequena Lisboa”, como Olinda era chamada, era muito mais rica e movimentada do que em Salvador.

    A VONTADE DE DEUS

    Jorge de Albuquerque, porém, não veria isso de perto. Muito orgulhoso e esquentado, naquele meio extremamente bruto da colônia, ele se desentendera com muita gente. Como, por exemplo, o florentino Felipe Cavalcanti, casado com sua prima Catarina. Por esse ou por outros motivos, encurtara sua estada em Pernambuco. E, na volta para Lisboa, em 1565, começara a criar sua fama.
    A nau comercial Santo Antônio, na qual viajava, fora abordada por piratas franceses, e seu capitão logo determinara a rendição. Jorge, porém, não acatara a ordem e lutara por três dias, à frente de seis voluntários, com dois pequenos canhões, até ser vencido; ganhando a admiração, inclusive, dos inimigos. Em seguida, desabara uma enorme tempestade, e a Santo Antônio, depenada pelos corsários, que lhe roubaram até a bússola, quase foi a pique. Mas, com um pau de duas braças no lugar do mastro, uma velinha remendada com retalhos, o leme amarrado com tiras de couro e quase sem mantimentos, Jorge conseguira levá-la até Portugal. E por ordem do então regente, o cardeal D. Henrique, ela foi rebocada pelo rio Tejo acima, para que todos vissem “como opera a vontade de Deus”.

    Uma lenda forjada no mar e no deserto

    Treze anos depois, o rei D. Sebastião foi à guerra. Ele queria barrar o avanço dos turcos no noroeste da África, além de exaltar a glória do cristianismo, de Portugal e a sua própria, naturalmente. “O Desejado” organizou um exército de vinte mil homens, que custou uma fortuna aos cofres lusitanos, mas acabou derrotado e morto na bata-lha de Alcácer-Quibir (“grande fortaleza”, em árabe). Nela também morreram dois sultões marroquinos, o aliado Mulei Mohamed e o inimigo Mulei Moluco, sendo por isso chamada, por lá, de “Batalha dos Três Reis”.
    Já famoso pelo desempenho no mar, Jorge de Albuquerque também se destacou nas areias africanas. Segundo a lenda, o rei perdera o cavalo no meio da luta. Então, o pernambucano lhe cedera o seu, e, mesmo a pé, seguira pelejando. Ferido e aprisionado, ele seria adiante resgatado, à custa de muita prata; tornando-se, ainda, o terceiro donatário de Pernambuco, após a morte no cativeiro do seu irmão Duarte.
    Contudo, devido aos ferimentos nas pernas, não conseguiria mais andar. E, talvez por isso, nunca mais retornaria à sua terra. Jorge casaria com D. Ana de Redondo, com quem teria dois filhos, Duarte e Matias, e morreria em Portugal. Um reino que, além da perda dos seus melhores homens e dos prejuízos financeiros sofridos com a guerra na África, também ficara sem rei, pois D. Sebastião não deixara vestígios nem herdeiros.
    Por conta disso, a coroa lusitana acabaria parando na cabeça do seu parente mais próximo, o espanhol Felipe II. E, na sequência, os holandeses, em guerra com a Espanha desde 1568, invadiriam Pernambuco, em 1630.
    Um episódio que veremos seguir, ao tratarmos de Matias de Albuquerque, filho de Jorge, encarregado de defender a capitania do ataque flamengo.

    Os dentes da rainha inglesa

    Na Inglaterra daquele tempo, ter cáries nos dentes era ‘ostentação’, pois o açúcar que as provoca custava uma fortuna. E uma ostentação chique, porque a rainha Elisabeth (1533/1603), que ditava moda (como ditam as rainhas, até os dias de hoje), amava os doces açucarados, exibindo, por isso, uma dentadura bem estragada.

    O fausto e o aparato de Olinda

    Em 1645, frei Manoel do Salvador descreveria (com algum exagero, típico do estilo barroco) a riqueza da Nova Lusitânia. “Em Olinda”, ele anotou, no seu livro O valeroso lucideno, “as mulheres andavam tão louçãs e tão custosas que não se contentavam com chamalotes, tafetás, veludos e outras sedas, senão que arrojavam as mais finas telas e os mais ricos brocados. E eram tantas as joias com as quais se adornavam que pareciam chovidas em suas gargantas e cabeças as pérolas, os rubis, as esmeraldas e os diamantes. O fausto e o aparato das casas era excessivo, porque por mui pobre e miserável se tinha o que não possuía o seu serviço de prata. o que melhor traziam. O ouro e a prata era sem número, e o açúcar era tanto que não havia embarcações para carregá-lo, entrando e saindo do seu porto grandes frotas de naus e caravelas”.


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    Com poucos recursos, ele resistiu bravamente durante cinco anos aos poderosos flamengos, donos do  melhor exército do mundo, e lhes  causou 16 mil baixas , pelas próprias contas deles

    Ele estava no Cabo de Santo Agostinho, em junho de 1635, quando recebeu a notícia: o Arraial do Bom Jesus, quartel-general da resistência, sob seu comando, fora finalmente capturado. Cercados, sem alimentos, seus defensores comeram até couros de sapatos e de arreios bem cozidos. Mas, quando já não havia nem um grão de pólvora, tiveram de se render. Agora, além do Rio Grande Norte e da Paraíba, Pernambuco também já caíra, praticamente, sob domínio holandês. O quadro era seriíssimo e graves decisões precisavam ser tomadas.
    Matias, porém, era neto de Duarte Coelho, o enérgico primeiro donatário da capitania, e filho de Jorge de Albuquerque, um dos maiores guerreiros do seu tempo. Ousadia e determinação nunca lhe faltaram. Então ele pensou, pensou, pensou, e cometeu o maior erro da sua vida…

    O PERIGO HOLANDÊS
    O destino de Matias começou a ser traçado antes do seu nascimento. Precisamente, na famosa batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, norte da África, em 1578. Nela, o jovem rei de Portugal, D. Sebastião, desapareceu sem deixar vestígios. E como não tinha filhos, a coroa lusitana foi parar na cabeça do seu primo Felipe II, rei da Espanha. Já o pernambucano Jorge de Albuquerque, que se bateu com valor, ao seu lado, foi gravemente ferido nas pernas e não pôde mais andar. Por conta disso, jamais retornou à sua terra natal. Ele ficou em Lisboa, onde casou e onde nasceram e cresceram seus dois filhos, Duarte e Matias.
    Acontece que a Espanha estava em guerra, desde 1568, com os Países Baixos, uma confederação de sete nações, entre as quais a Holanda. E estando Portugal – consequentemente, o Brasil – sob controle espanhol, Pernambuco, grande produtor açúcar, tornou-se alvo dos holandeses. Então, em 1620, com apenas 25 anos de idade, Matias recebeu do rei Felipe III uma missão formidável: defender a capitania que fora do seu avô, do seu pai, e agora pertencia ao seu irmão velho, prestes a ser invadida. E lá veio ele, numa esquadra de dez navios, com o posto de capitão-mor e um salário anual de trezentos mil réis.

    AGUARDANDO A LUTA
    Os flamengos, porém, só chegaram em 1624. Eles desembarcaram com três mil homens na Bahia, de onde foram expulsos por doze mil soldados espanhóis enviados para lá, um ano depois. Então, em 1627, Matias foi chamado à Europa. Mas, em 1629, mandaram-no de volta, devido a uma nova ameaça de assalto. E, dessa vez, deram-lhe apenas uma caravela e 27 soldados.
    O problema é que a Espanha católica, estava em guerra não só com os Países Baixos, mas também com uma aliança de países protestantes. Consequentemente, com os cofres vazios. E o capitão-mor teve de se virar praticamente sozinho. Então, planejou uma “guerra lenta”, de desgaste, na qual o inimigo só teria prejuízos até desistir da empreitada ou ser expulso. Tal como ocorrera na Bahia.
    No dia 14 de fevereiro de 1630, os holandeses chegaram, enfim, com sete mil tropas. Eles desembarcaram na praia de Pau Amarelo e, apesar da brava resistência do capitão, logo se apoderam de Olinda – que, ao final do ano, seria incendiada – e do Recife, escolhida para ser sua capital. Matias, então, recuou para o Arraial do Bom Jesus, uma fortaleza erguida por ele às pressas, mas extraordinariamente sólida. E os invasores conheceram a sua primeira derrota, tentando conquistá-la.
    A partir desse momento, a estratégia dele começou a funcionar.

    A GUERRA LENTA
    O plano era simples. Difícil era a execução. Os índios de Felipe Camarão e os guerrilheiros do capitão Rebelinho ficavam de tocaia, escondidos no mato. E qualquer holandês que pusesse o pé fora do Recife arriscava-se a levar uma flecha ou uma bala certeira, disparada por um atirador invisível. Assim, os invasores só tinham para comer o pão, a cerveja e a carne de porco salgada trazidos da Europa, em quantidade insuficiente; afora os gatos e ratos recifenses que conseguiam apanhar. E, pela falta de frutas e verduras, sofriam de cegueira noturna e disenterias, além da perda de dentes, devido ao escorbuto. Por fim, longe dos engenhos de açúcar, que ficavam no interior, só faturavam quando capturavam alguma nau portuguesa ou espanhola, trafegando entre o Brasil e a Europa.
    Por outro lado, no Arraial, as tropas quase não recebiam soldo, nem roupas, nem calçados. E a pólvora era artigo de luxo. Só a extraordinária firmeza de Matias tocava a luta adiante. Inclusive, contra a vontade de muitos senhores de engenhos que, desesperados com os prejuízos causados pela guerra, tinham muito interesse num acordo com os invasores.
    E assim se passaram dois anos. Nem a chegada de Duarte de Albuquerque, o irmão mais velho de Matias, e de um militar experiente, o Conde de Bagnuolo, à frente de algumas tropas espanholas e napolitanas, enviadas pelo rei, mudaram esse quadro. Só aconteceu uma reviravolta quando Domingos Calabar, que lutava por Portugal, trocou de lado.

    Um novo Moisés conduzindo seu povo

    O mameluco Calabar, filho de um português com uma índia, era muito esperto e conhecia Pernambuco como ninguém. Com ajuda dele, os flamengos passaram a também usar táticas de guerrilha, fazendo Matias provar do seu veneno. A entrada na luta do valente Henrique Dias, à frente de uma tropa de negros livres, aliviou, mas não resolveu o problema do capitão-mor português. Que, mesmo assim, ainda resistiu por três anos, até o golpe final, a tomada do Bom Jesus, com os vencedores torturando os vencidos para que lhes entregassem seus bens de valor.
    Então, Matias baixou um polêmico decreto que custaria muito caro a ele e a milhares de pernambucanos: mandou que todos os moradores da capitania se retirassem! Quem ficasse, seria considerado traidor! E, dos 150 engenhos que então havia, a metade foi abandonada. Cerca de oito mil pessoas, homens e mulheres, jovens e velhos, seguiram seu capitão, a duríssimas penas, para a terra prometida. No caso, a Bahia.
    No caminho, passando por Porto Calvo, Matias teve a sorte de esbarrar em Calabar, que prendeu e mandou imediatamente executar. A grande retirada, porém, desagradou profundamente aos seus superiores e o capitão foi despachado para a Europa, onde ficou preso por cinco anos. Mas, quando Portugal se insurgiu contra a Espanha, em 1640, ele saiu da masmorra para se tornar o herói da batalha de Montijo, que deu fim a uma domínação de 80 anos.
    Matias morreu em Lisboa, em 1647, aos 52 anos de idade, com o Pernambuco pelo qual tanto lutara ainda sob o domínio holandês. E na próxima semana trataremos do seu desafeto Calabar, de quem até hoje se discute se foi traidor ou não.

    Um verdadeiro sacrilégio

    Avaliando que Olinda, a vila mais rica e povoada do Brasil, era “aberta por muitas partes” e, por isso, indefensável, os flamengos a destruíram. Eles puseram fogo em casas, igrejas e conventos, sem poupar nem as imagens de santos, e levaram as pedras das construções para com elas erguerem novos prédios no Recife. Um vilarejo que, além de possuir um porto excelente, era cercado de água. E, portanto, mais fácil de proteger, em caso de ataque.

    Governadores do Brasil X Capitães de Pernambuco

    Muito orgulhoso e prepotente, além de corajoso, Matias desembarcou aqui pela primeira vez, em 1620, já causando polêmica. Ele mandou que toda a população de Olinda fosse recebê-lo no Varadouro, e subira até a Sé debaixo de um pálio de seda, ao som de caixas e trombetas. Com isso impressionou, mas também irritou muita gente. Inclusive seu primo Luiz de Souza, o governador-geral, que, de Salvador, reclamou ao rei de tanta ostentação. E reabriu uma velha disputa, iniciada com Tomé de Souza, em 1548: os governadores do Brasil achavam que os capitães de Pernambuco tinham poder e autonomia demais, para o gosto deles.


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    Entre Portugal, Espanha e Holanda, ele optou pelo que lhe pareceu melhor, e quase mudou o rumo do Brasil

    Em julho de 1635, tudo corria bem para Domingos Fernandes Calabar. Aos 26 anos de idade, tinha o posto de capitão e gozava de muito prestígio nas tropas flamengas que, desde 1630, tentavam se apossar de Pernambuco. O almirante Lichthardt, por exemplo, era seu amigo. O coronel Von Schkoppe, era padrinho de um dos seus filhos. E a vitória estava próxima. A queda do Arraial do Bom Jesus, principal reduto do incansável capitão-mor Matias de Albuquerque, ocorrida um mês atrás, fora a pá de cal na resistência dos portugueses e espanhóis. Um sucesso devido principalmente a ele, o brasileiro que tivera a visão e a ousadia de mudar de lado, em 1632, quando a situação dos holandeses não parecia nada boa.
    Finda a guerra, coberto de glória, Calabar pretendia, agora, desfrutar a paz, ao lado de Bárbara, sua mulher, e dos seus meninos. O futuro lhe sorria. Antes, porém, ele resolveu acompanhar uma coluna destacada para ocupar a vila de Porto Calvo, vinte léguas ao sul do Recife. Era a sua terra natal e ele tinha alguns assuntos pessoais a resolver, por lá.
    Aí, deu um tremendo azar…

    PROBLEMA DE MESTIÇO
    Calabar não nascera pobre. Seu pai era dono de três engenhos em Porto Calvo. E ele poderia ter ficado por lá mesmo, após a chegada dos holandeses. No começo, a luta se travava apenas em torno do Recife, onde os invasores foram cercados pelo capitão Matias. Mas aquele rapaz era inteligente, enérgico e ambicioso demais para manter-se quieto enquanto o mundo pegava fogo, ali perto. Então, se oferecera como voluntário a Matias, sob cujas ordens pelejara por dois anos. Tendo sido, inclusive, ferido em combate.
    Aos poucos, porém, Calabar fora se frustrando. Por mais provas que desse de coragem e de uma extraordinária visão de estrategista militar, seu valor não era reconhecido. Seus problemas eram a pele morena, herdada da mãe – uma “negra da terra”, ou seja, uma índia –, e a “vileza” do seu nascimento, pois ela e seu pai português não eram casados. E no mundo luso-espanhol daquele tempo, racista, aristocrático, conservador, não havia muitas esperanças de ascensão social para um mestiço, um “mameluco”, como ele. Então, começara a se questionar.

    QUAL O MELHOR?
    Ora, ora – Calabar deve ter pensado –, que lealdade os brasileiros deviam aos portugueses, que vinham ao Brasil somente para explorá-lo e destruí-lo, chupando a sua substância? Que nunca produziram um só “repúblico”, ou seja, alguém preocupado com o bem comum, apenas gente interessada nos próprios negócios? Que eram atrasados e incapazes de produzir manufaturas, ao passo que os flamengos fabricavam todo tipo de instrumentos, armas e tecidos? E que fidelidade mereciam, por sua vez, os espanhóis, só pelo fato de, desde 1580, estarem mandando em Portugal?
    E quanto à Igreja Romana? Era preciso ser fiel a ela? Não bastaria ser fiel a Jesus? Ora, os protestantes holandeses também eram cristãos. E, além disso, tolerantes com os fiéis de outras crenças, haja vista não perseguirem os judeus. Muito ao contrário dos católicos. A passagem da Inquisição por Pernambuco, entre 1593 e 1595, por exemplo, deixara um rastro de sangue e crueldade ainda lembrado, quarenta anos depois. Finalmente, se havia tantos mercenários vagando por ali, e de tantas nacionalidades – franceses, ingleses, polacos, germânicos, napolitanos e muitos mais – por que, em nome de Deus, ele não podia, também, alugar sua espada a quem quisesse? Então, Calabar trocara não só de partido como de religião, e o fiel da balança da guerra começara a pender para o outro lado.

    Uma carreira militar brilhante com um final inesperado

    Os holandeses, que possuíam as melhores tropas e marinha do mundo, acharam, a princípio, que conquistariam Pernambuco com facilidade. Mas, enganaram-se. A tenaz oposição de Matias de Albuquerque os prendera à beira-mar, como se fossem caranguejos. Por dois anos ficaram encurralados no Recife, passando fome e adoecendo. Então, aparecera Calabar, que conhecia tudo sobre aquela terra. E tendo, em pouco tempo, aprendido a se comunicar na enroscada língua flamenga, os conduzira para o contra-ataque.
    O primeiro assalto fora a Igarassu, a segunda maior vila da capitania. Eles atacaram à noite, de surpresa, com um esquadrão de poucas centenas de homens, e lá apreenderam oitenta mil ducados em ouro e joias, além de gado e outras provisões. Porto Calvo e Serinhaém também foram vítimas dessa tática, mais eficiente do que a guerra tradicional e sem grandes e custosos deslocamentos de tropas. De quebra, muitos senhores de engenhos, temerosos de ver suas propriedades saqueadas e destruídas, passaram a se comprometer, secretamente, a não mais apoiar Matias, em troca de serem poupados.
    Somente aí o capitão-mor reconhecera o valor de Calabar, e tentara trazê-lo de volta. Sem sucesso. Então, encomendara sua morte a um primo dele, Antônio Fernandes. Mas, em vez de morrer, Calabar matara Antônio. E tudo que ele planejava costumava dar certo. Inclusive, a captura do Arraial do Bom Jesus, após várias tentativas goradas. Até aquele infeliz episódio em Porto Calvo.

    DESTINO CRUEL
    Muita falta de sorte, para uns. Para outros, castigo de Deus pela traição. Ninguém, contudo, poderia imaginar que Matias de Albuquerque, vendo-se derrotado, ordenasse a retirada de todos os habitantes de Pernambuco para a Bahia. E que, conduzindo uma coluna de oito mil pessoas aflitas com aquela mudança forçada, passasse por Porto Calvo exatamente quando Calabar estava lá, cuidando dos seus negócios.
    Pois foi o que aconteceu. E, tendo tido a sorte de capturar seu pior inimigo, já no finzinho da guerra, o capitão mandou, imediatamente, executá-lo. Segundo frei Manoel do Salvador, que lá vivia, “mal apontou a noite, tiraram Calabar da prisão, lhe deram garrote (estrangularam) e o fizeram em quartos (esquartejaram), com tanta pressa que nem lhe deram lugar a se despedir, receosos de que ele dissesse ou declarasse alguma coisa pesada”. Ou seja, além de uma vingança pessoal, tratou-se, também, de uma “queima de arquivo”, pois o mameluco sabia de muitas negociatas suspeitas com os flamengos. Que, para Matias, era melhor manter em segredo.
    Já os holandeses, que retomaram Porto Calvo, dias depois, deram um enterro decente aos seus restos, expostos em via pública. Cada um dos seus três filhos menores passou a receber, também, oito florins mensais, o pagamento de um soldado. E se Calabar foi traidor ou não; e se a colonização pelos holandeses teria sido melhor para o Brasil; são temas de debate até hoje.

    Entre dois mundos

    O Império Espanhol, do qual Portugal fez parte, entre 1580 e 1640, era católico, aristocrático e conservador. Já a Federação dos Países Baixos era protestante, republicana e progressista. No primeiro havia a Inquisição e poucas oportunidades para quem não nascera nobre. No segundo, havia liberdade religiosa e de pensamento, além de apoio às ciências e às artes. Mas o que era bom para os flamengos não o era, necessariamente, para os povos que colonizavam. Tome-se, por exemplo, os sul-africanos, que sofreram muito com o regime de “apartheid”, imposto pelos eles.

    Calabar, Camarão e Dias

    Houve pelos menos dois brasileiros de pele escura que foram muito bem tratados por Matias de Albuquerque e, mais adiante, agraciados pelo rei D. João IV: o índio Felipe Camarão e o negro Henrique Dias. Acontece que ambos, além de soldados valorosos, eram, também, líderes das suas respectivas raças, cujo apoio era disputado por flamengos e luso-espanhóis. Já Calabar não representava nem comandava ninguém, a não ser ele mesmo. Até mudar de lado.


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    Ele inovou na política, no urbanismo, nas ciências, nas artes, e até mesmo no meio-ambiente

    O conde João Maurício de Nassau fizera o possível e o impossível para manter-se no cargo de governador do Brasil Holandês, que ocupava desde 1637. Sem sucesso. Sua empregadora, a Companhia das Índias, o demitira por não saber economizar despesas. Então ele partira, finalmente, em maio de 1644, levando saudades daquela terra quente, colorida e sensual – “o país mais belo do mundo”, conforme o descrevera numa carta ao governo flamengo –, saindo daqui muito mais rico do que quando chegara.
    Nassau, porém, não viera apenas para ganhar dinheiro, pois era um autêntico humanista, dotado de um espírito crítico, racionalista, inovador. Ele enriquecera, sim, mas também fizera um governo extraordinário, naquele pedaço de mundo ainda semi-selvagem. A ponto de ser tornar uma lenda, por causa disso…

    O MILITAR
    João Maurício era o primogênito do segundo casamento de D. João VII, senhor de Nassau, um condado do Sacro Império Romano-Germânico, com a princesa D. Margarida. Uma família muito nobre e muito rica. Mas ele tinha doze irmãos só do primeiro casamento do pai. E, querendo construir para si uma bela mansão em Haia, na Holanda, ao custo de 500 mil florins, fora trabalhar para a Companhia das Índias Ocidentais – uma empresa multinacional, com sede na Holanda, criada para se apoderar de todas as possessões espanholas e portuguesas nas Américas e na África. Por cinco anos, ele seria governador, almirante e capitão general, ganhando 22 mil florins anuais, mais dois por cento do butim de todas as naus inimigas capturadas no Atlântico. Além do arrecadado “por fora”, em presentes dos seus governados e em negócios particulares, legais ou nem tanto.
    Ao chegar aqui, com 33 anos de idade, Nassau já era um soldado experiente, e suas primeiras ações foram no campo militar. Ele expulsara os portugueses e espanhóis das Alagoas, seu último reduto em Pernambuco. Em seguida, incorporara Sergipe, o Ceará e o Maranhão aos domínios da Companhia. Também tentara ocupar a Bahia, sem sucesso. E três anos depois, em 1640, com 41 navios e 2.800 homens, rechaçara, ainda, o ataque da armada do Conde da Torre, enviada pelo rei da Espanha, com 87 naus e cinco mil soldados, após uma série de batalhas navais travadas no litoral nordestino.

    O ESTADISTA
    A mão de ferro, porém, viera calçada com luva de veludo. Desde o início do seu governo, Nassau se empenhara em conquistar os corações e mentes do povo da terra. Se os flamengos dominavam a navegação e o comércio, a produção de açúcar era competência dos antigos moradores. Sem eles, não haveria o ouro branco que valia tanto, no mercado europeu.
    Dentro dessa política de paz e conciliação, ele impedira as perseguições religiosas dos protestantes contra os católicos, e desses dois grupos contra os judeus. Também protegera os índios, e proibira que os escravos fossem marcados a ferro. Interditara, ainda, o lançamento de bagaço de cana nos rios e a derrubada de cajueiros, e mandara os proprietários plantar mandioca e hortaliças nas suas terras, afora cana-de-açúcar, para baixar os preços dos alimentos.
    Por fim, fizera uma reforma política. Ele trocara as câmaras municipais que, no passado, eram controladas pelos grandes proprietários, por novas câmaras de “escabinos”, nas quais os artesãos, os comerciantes etc., também ganharam voz ativa. E se algumas dessas inovações irritaram os antigos “poderosos e principais” da terra, ele também os agradara facilitando empréstimos para a reativação do parque açucareiro, destruído pela guerra da ocupação.

    O CIVILIZADOR
    Se Nassau não fosse nobre, provavelmente seria arquiteto. Ao chegar, ele detestara a vila infecta e desordenada do Recife (hoje, o bairro do Recife Antigo), e erguera outra, na ilha de Antonio Vaz, no meio do Capibaribe. A “Mauriceia”, primeira urbe planejada do Brasil, era cortada por canais e tinha mercado público, serviço de bombeiros e coleta de lixo. Lá construíra, ainda, o Palácio Nova Friburgo, onde despachava; o Palácio da Boa Vista, onde morava; um jardim zoobotânico e duas pontes, a do Recife e a da Boa Vista.
    Por fim, o conde trouxera os pintores Frans Post, Albert Eckhout e Zacarias Wagener, para retratar as paisagens e o povo brasileiros. Para estudar as doenças tropicais, importara Willem Piso, além de George Marcgrave, para pesquisar a natureza, e Cornélio Golijath, para desenhar mapas. Tudo isso, claro, custava muito dinheiro. Mas ele, um fino aristocrata, jamais se preocupara em fazer economia. Até o inesperado vir bater à sua porta.

    Todos queriam Nassau, menos a sua patroa

    Em janeiro de 1641, chegara a notícia de que os portugueses havia declarado independência dos espanhóis, e o cenário mudara inteiramente. Ora, o Brasil fora invadido pelos flamengos, em 1630, porque estava sob o controle da sua grande inimiga, a Espanha. Entretanto, reatada a paz com os velhos aliados lusos, cessara a captura dos navios que partiam carregados de açúcar do Rio e da Bahia para a Europa – até aí, a maior fonte de renda da Companhia, já que a produção dos engenhos pernambucanos ainda não se recuperara da guerra. A empresa, então, começara a operar no vermelho. E, já em abril, o conde gastador fora demitido do emprego.
    Nassau ainda tentara se defender com petições das câmaras de escabinos de Mauriceia, da Paraíba, de Igarassu, de Serinhaém e de Itamaracá, rogando pela sua permanência. Os judeus até se ofereceram para pagar suas despesas, e os portugueses quiseram contratá-lo para comandar seu exército. E nesse vai-não-vai se passaram dois anos, até a chegada da dispensa definitiva.
    De volta à sua terra, o conde ocupou vários postos civis e militares importantes. E, sendo amigo de grandes artistas e intelectuais como Descartes, Huygens, Bacon, Corneille, Donne e Rubens, entre outros, além de príncipes, como rei Carlos I da Inglaterra, retomou a vida social e cultural refinada, da qual sentira falta nos últimos sete anos.
    Ele encarregou o famoso escritor Barlaeus de contar a história do seu governo no Brasil, em latim, a língua das pessoas cultas. Em 1647, foi publicada a Rerum in Brasilian Gestarun Historia. Também patrocinou, em 1648, a Historia Naturalis Brasiliae, escrita por Piso e Marcgrave e ilustrada por Eckout – onze belíssimos livros sobre a fauna, a flora e os povos brasileiros. E, mais adiante, tornou a pegar em armas contra os franceses, em 1667, e os espanhóis, em 1671, como marechal de campo. Seu último título foi o de Príncipe de Nassau-Siegen.
    Nassau morreu em 1679, aos 75 anos, em Haia. Doente, na velhice, dormia numa rede bordada e guarnecida de franjas amarelas, que trouxera de Pernambuco. E na próxima semana falaremos do seu incrível secretário, o judeu Gaspar Dias Ferreira.

    O Palácio de Haia

    A Mauritshuis, ou “Casa de Maurício”, que motivou a vinda de Nassau para o Brasil, é um joia da arquitetura flamenga, projetada pelos afamados Jacob Van Campen e Pieter Post. E foi maliciosamente apelidada pelos diretores da Companhia das Índias de “Palácio do Açúcar”. Transformada em museu, em 1822, abriga, hoje, uma grande coleção de obras de arte – algo que certamente agradaria seu refinado construtor.

    Partida triunfal e bagagem monumental

    Nassau levou daqui animais vivos e empalhados, coleções de insetos e vegetais, móveis, pinturas, madeiras nobres, cavalos, conchas marinhas e muito mais. Avaliada em dois milhões e seiscentos mil florins, somente essa equipagem pagaria cinco Mauritshuis e ainda sobrariam cem mil florins. O embarque foi na Paraíba, e a viagem do Recife até lá se transformou numa marcha triunfal de onze dias, pois todo povo da região veio despedir-se do conde, além de assistir o espetáculo nunca visto de uma caravana de carros de bois daquele tamanho. O trajeto final dele, pela praia, foi feito nos braços de indígenas, que o chamavam de “irmão”.


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    O conde e ele eram tão próximos que chegaram a se associar para aplicar desfalques na Companhia das Índias

    Maurício de Nassau partiu de má vontade, em maio de 1644, após ser demitido do cargo de governador do Brasil Holandês. Mas seu futuro estava garantido. Além de ter ganho muito dinheiro, por aqui, já recebera várias propostas da Europa. Para o seu secretário, porém, a situação ficou bem ruim. Além de ter perdido o emprego e a honra de conviver com aquele nobre finíssimo, ele, aproveitando-se do cargo, armara inúmeros trambiques para cima de muita gente, em Pernambuco. E sentia-se agora ameaçado, sem a sombra protetora do ex-patrão.
    Mas Gaspar Dias Ferreira era um lutador que já vencera muitos desafios, nos seus 47 anos de vida. E os tempos turbulentos que se anunciavam, após a saída do conde, certamente abririam novas oportunidades para um sujeito esperto como ele…

    O NEGOCIANTE
    Nascido em Lisboa, filho do cristão-novo Pedro Dias Ferreira, Gaspar viera para cá ainda rapazinho, com 17 anos, em 1614, e se dera muito bem. A partir de 1609 começara a vigorar a chamada “trégua dos doze anos”, na guerra entre a Federação dos Países Baixos e a Espanha – na época, dona de Portugal; e, portanto, também, do Brasil – abrindo-se um intenso tráfego comercial entre a Holanda e Pernambuco.
    Esta capitania contava, então, com 121 engenhos “correntes e moentes”, e só em Amsterdã havia 26 refinarias trabalhando com o açúcar aqui produzido. Um negócio muito lucrativo para os negociantes judeus de origem lusitana estabelecidos naquela cidade, capazes de falar português e flamengo. E Gaspar, como um dos seus representantes, chegara a ser dono de vários armazéns no porto do Recife.
    Com o reinício da guerra, porém, em 1621, aquele movimento fora suspenso. Em consequência, no mesmo ano fora criada, nos Países Baixos, a Companhia das Índias Ocidentais, com participação financeira da comunidade judaica de Amsterdã. E, em 1630, Pernambuco fora invadido, para tristeza de Gaspar, que, nos anos seguintes, de muita luta, perdera quase tudo que possuía. Mas sua vida mudara para melhor, novamente, em 1637, com a vitória flamenga e a chegada de Nassau.

    O ASSESSOR
    O fato é que o conde viera governar uma autêntica Babel, onde havia gente de inúmeras nações. E, embora dominasse várias línguas, ele não falava o português e o tupi, afora desconhecer os costumes locais. Então, para assessorá-lo, contratara Gaspar. Que, aos poucos o conquistara, logo passando a usar a influência do seu cargo em benefício próprio.
    Entre outros golpes, por exemplo, o secretário se apossara de bens das ordens dos franciscanos, beneditinos e carmelitas que haviam partido de Pernambuco, em 1635, quando Matias de Albuquerque ordenara a retirada de todos os moradores para a Bahia. A intimidade dele com Nassau chegara ao ponto de os dois, juntos, montarem um esquema de contrabando de escravos africanos, em prejuízo da sua empregadora, a Companhia das Índias.
    Descoberta a trama, a empresa advertira o governador e cobrara-lhe multa. O conde, porém, mantivera Gaspar, que lhe dava bons conselhos e ainda servia de intermediário com a comunidade judaica, ajudando a minimizar os problemas causados por ela.

    O ISRAELITA
    O fato é que, como Gaspar, muitos judeus haviam se transferido da Europa para Pernambuco. E continuavam chegando. Aqui fundaram duas sociedades religiosas, Kahal Zur Israel, a “Rocha de Israel”, e Maguén Abraham, o “Escudo de Abraão”, que, adiante, se fundiram. Eles tinham suas próprias escolas, cemitério e sistema de bem-estar social; e, novamente, por serem os únicos a falar fluentemente as línguas da terra e o flamengo, tomaram conta da banca, da cobrança de impostos, do comércio em geral. E tamanho poder incomodava muita gente, é claro.
    Em 1637, a Câmara de Escabinos (vereadores) já protestava contra eles “por ser gente inclinada a falências e enganos, odiosa a todas as nações do mundo”. Os comerciantes cristãos também reclamaram, em 1641. E o Consistório da Igreja Reformada fez o mesmo, acusando-os de “seduzirem cristãos para o sacrílego judaísmo, circuncidarem cristãos, servirem-se de cristãos para criados em suas casas e de cristãs para suas concubinas”.
    Nassau, porém, ciente da importância deles – geralmente cultos, além de excelentes coletores de impostos – no seu governo, soubera manter a paz, controlando os excessos de ambos os lados. No seu tempo, aliás, os judeus em Pernambuco chegaram a quase mil e quinhentos.

    Um agente secreto a serviço de Sua Majestade

    E tudo corria bem até que, em 1640, Portugal se separara da Espanha e fizera a paz com a Holanda. Logo, cessara o apresamento das naus lusitanas que saíam carregadas de açúcar do Rio e da Bahia, até aí a maior fonte de renda da Companhia das Índias. E Nassau, que governava muito bem, mas não sabia economizar despesas, fora demitido, deixando em suspenso o futuro do seu secretário.
    Gaspar, porém, não perdera tempo. Em segredo, antes mesmo da partida do seu patrão, ele e outros proprietários se reuniram e concluíram que, sem o conde, seria impossível suportar o arrocho da Companhia, que cobrava impostos e juros altíssimos. E sugeriram a Portugal oferecer a ela dois milhões de cruzados como indenização pela sua saída do Brasil, a serem pagos com açúcar, em prestações. Enquanto isso, os pernambucanos iriam à guerra, para forçá-la a aceitar o acordo.
    O Conselho Ultramarino até ficara favorável à proposta. Mas o rei, D. João de Bragança, com medo da vizinha Espanha, da qual era protegido apenas pela marinha e o exército flamengos, a rejeitara. “Já não tem lugar”, ele dissera. A partir daí, a vida de Gaspar deu uma guinada.
    Sentindo-se ameaçado e sem muito que fazer em Pernambuco, ele embarcou para a Holanda, onde foi bem recebido pela comunidade judaica de Amsterdã e tornou-se cidadão dos Países Baixos. Mas, por baixo dos panos, passou a trabalhar como agente da coroa portuguesa, até ser preso, em 1646, pelo crime de alta traição. Em 1649, porém, fugiu da prisão, corrompendo a guarda. E nunca mais foi pego, apesar do prêmio de seiscentos florins oferecido pela captura de “um homem de cerca de cinquenta anos, baixo, gordo, da cor morena”, conforme o anúncio distribuído pelas autoridades.
    Dois anos depois, em Lisboa, Gaspar ganhou a Ordem de Cristo, a mais importante comenda lusitana, por “procurar a graça e valia do Conde de Nassau, por meio da qual sustentou religiosos e livrou muitos seculares da ira do conde, obrando com cautela, astúcia e evidente perigo de vida”. E continuou a transitar clandestinamente entre Portugal e Holanda, até findar seus dias como encarregado da biblioteca da sinagoga portuguesa de Amsterdã.
    Na próxima semana, trataremos da bela Ana Paes, uma mulher à frente do seu tempo.

    Tolerância religiosa e intelectual

    Perseguidos na Espanha e em Portugal, muitos judeus se transferiram para a Holanda, a partir do final do século dezesseis. Assim como muitos artistas e intelectuais não judeus, entre os quais Spinoza, Huygens e Descartes. Este último escreveu, em 1631: “Em que outro país se pode gozar de uma liberdade tão completa e se pode dormir menos inquieto? Em que outro país há sempre exércitos para nos proteger, e onde os envenenamentos, as traições e as calúnias sejam tão pouco frequentes?”. Enquanto isso, na Roma católica, Galileu Galilei era obrigado a renegar sua teoria de que a Terra girava em torno do sol para não queimar na fogueira, tal como Giordano Bruno fora queimado, em 1600.

    De Recife a Nova York

    Nas negociações de rendição com os flamengos, em 1654, ficou acertado que os judeus estabelecidos no Recife seriam reenviados para a Europa, e eles partiram num comboio de 16 naus, rumo a Amsterdã. Uma delas, porém, foi capturada por piratas, e seus 23 passageiros – quatro casais, duas viúvas e treze crianças – depois de muitas peripécias, desembarcaram em Nova Amsterdã, então um entreposto comercial da Companhia das Índias, na Ilha de Manhattan. E lá chegando apenas com a roupa do corpo, eles deram uma grande contribuição para o crescimento daquela feitoria, que viria a se transformar na metrópole de hoje.


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    Ela viveu livremente, quebrando as regras que impunham completa submissão às mulheres no mundo luso-brasileiro

    “Mulher de família só deve sair de casa três vezes na vida”, rezava um ditado bem conhecido: “para se batizar, para se casar e para ser enterrada”. Ana Paes, porém, com ajuda da sorte e das circunstâncias de momento, desprezara aquela regra e conseguira ser dona do próprio nariz. Ela provara ser capaz de administrar, sozinha, um dos maiores engenhos de Pernambuco. Tivera uma vida social intensa, na corte de Maurício de Nassau. Trocara de religião, passando de católica a protestante calvinista. Casara-se três vezes, com direito a um grande caso de amor entre o primeiro e o segundo matrimônio. E tudo lhe corria bem, até Nassau ser despedido do emprego de governador do Brasil Holandês e voltar para a Europa.
    Então, os pernambucanos levantaram-se em armas contra os flamengos, que se viram de novo cercados no Recife, como nos primeiros tempos da invasão. O engenho de Ana fora totalmente destruído, numa batalha histórica. E a sua vida ficara muito difícil…

    MULHER INCOMUM
    Ana Paes Gonsalves de Azevedo nascera em 1617, filha de um casal pernambucano de muitas posses, e crescera alta, bonita e elegante. Casara muito nova, como era costume, com o capitão Pedro Correia da Silva, recebendo como dote o engenho Casa Forte, o maior da várzea do Capibaribe, fundado pelo seu avô, Diogo Gonsalves. Seu marido, porém, morrera, em 1635, lutando contra os holandeses que invadiram Pernambuco, deixando-a viúva aos dezoito anos de idade. Então, para surpresa geral, a jovenzinha assumira pessoalmente a administração da sua propriedade.
    Por sorte, ao contrário de praticamente todas as mulheres daquele tempo, às quais – nem às ricas – não se ensinava a ler e a escrever, seus pais lhe haviam dado uma boa educação. E rapidamente ela aprendera a lidar com os fornecedores de cana, os feitores, os escravos, os comerciantes etc., conseguindo manter seu engenho entre os dez mais produtivos de Pernambuco, em meio a uma guerra. Nesse entretempo, ainda tivera um caso apaixonado com André Vidal de Negreiros, um dos comandantes da resistência contra os flamengos.

    MUNDO NOVO
    Os invasores, porém, venceram; Maurício de Nassau chegara, em 1637; e André Vidal partira para o exílio, na Bahia, ao passo que a jovem viúva ficara por aqui mesmo. E, tornando-se frequentadora da corte do conde, ela descobrira que os protestantes do norte da Europa eram bem mais liberais no trato com as mulheres do que os católicos do sul. Nas festas, por exemplo, as holandesas, inglesas, alemãs etc., bebiam alegremente e bem mais que os homens, para escândalo dos portugueses, espanhóis e brasileiros.
    Aqui acolá, Ana também via esposas de soldados, que haviam sido infiéis aos maridos, passarem horas acorrentadas em praça pública, expostas ao calor do sol. E viu até algumas damas elegantes levando chibatadas, pelo mesmo motivo. Contudo, elas não eram assassinadas pelos chifrudos, como era a regra com as brasileiras.
    Animada com aquele mundo novo, bem mais livre e movimentado que o anterior, Ana logo aprendera a falar alemão e flamengo. E casara com o capitão Charles Tourlon, comandante da guarda pessoal de Nassau, adotando a religião calvinista e tendo com ele uma filha, batizada Isabel. Um casamento bem de acordo, aliás, com a política de Nassau, que incentivava as uniões entre flamengos e luso-brasileiros, para aproximar esses povos e consolidar a ocupação.
    Inesperadamente, porém, o conde mandara prender Tourlon, acusando-o de traição e despachando-o de volta para a Europa, levando com ele a pequena Isabel. Mas, como aquele episódio não fora bem esclarecido, as más línguas, imediatamente, levantaram a hipótese de que Nassau, interessado na exuberante pernambucana, quisera se livrar do marido inconveniente. Tal como, na Bíblia, o rei Davi, se livrara do soldado Urias, esposo de Betsabé…
    Mas o fato é que, sozinha novamente, Ana começara a viver com Gilberto With, conselheiro de justiça do governo. E com ele se casara, em 1645, pela terceira vez, após chegar ao Recife a noticia da morte de Charles Tourlon. Naquele ano, porém, começara a Restauração, e o seu engenho Casa Forte servira de palco a um episódio vergonhoso para a bandeira flamenga.

    Uma importante batalha da Restauração

    Um ano após a partida de Nassau os pernambucanos se levantaram, sob o comando de João Fernandes Vieira. E os flamengos foram surpreendentemente derrotados já na primeira batalha, no Morro das Tabocas, em Vitória de Santo Antão, no dia três de agosto de 1645. Então, uma coluna do seu exército, marchando de volta ao Recife, acampara na propriedade de Ana Paes. E, por vingança, revistara o povoado da Várzea, que ficava próximo, sequestrando várias esposas e parentes de líderes rebeldes, que lá estavam abrigadas.
    Ao saber do ocorrido, o exército nativo, que estava em Tejipió, acudira imediatamente, chegando ao Casa Forte no dia 17 de agosto. Os flamengos, então, se refugiaram na casa-grande, e cometeram a baixeza de colocar as mulheres nas janelas, servindo-lhes de escudos. Mesmo assim foram atacados com fúria, tendo a derrota lhes custado 37 mortos, muitos feridos e mais de trezentos prisioneiros, além de grande quantidade de armamentos, cavalos e víveres. E o engenho de Ana fora incendiado.
    A partir daí, a pernambucana, seu marido holandês, e os dois filhos do casal, Cornélio e Elizabeth, começaram a passar grandes dificuldades. Como nos primeiros tempos da “Guerra Velha”, entre 1630 e 1637, os flamengos foram novamente cercados no Recife e voltaram a depender dos suprimentos enviados da Europa. “Fome” era a palavra mais comum nas Generale Missiven, os relatórios enviados para a direção da Companhia das Índias. Um drama que piorou ainda mais quando a Grã-Bretanha declarou em guerra contra os Países Baixos, em 1652. E só terminou em 1654, com a capitulação holandesa.
    Nas negociações, Ana foi considerada da mesma nacionalidade que o marido e pôde partir com ele para a Holanda, onde reencontrou sua filha Isabel. Mas perdeu todas as suas propriedades. E morreu por lá, em 1674, sem jamais ter voltado à sua terra natal.
    Anos depois, contudo, após um tratado firmado com Portugal, seus herdeiros moveram e ganharam uma ação indenizatória pelos bens da família. E o antigo pátio do engenho Casa Forte se tornou uma bela praça, no século vinte, com o primeiro jardim público criado pelo grande paisagista Burle Max.

    Mulheres da Holanda

    Muito ao contrário dos portugueses, os holandeses, em geral, evitavam o “comércio carnal” com criaturas de outras raças, como as negras e as índias. Daí a importação de prostitutas europeias, cujos nomes ou apelidos — Cristina Harmens, Ana Loenen, Janete Jans, Maria Krack, Sara Douwaerts, Maria Cabelo de Fogo e Chalupa Negra, por exemplo —, ficaram registrados nos anais da Companhia das Índias. Assim como ficaram registradas diversas reclamações de religiosos contra elas, por “desencaminharem pessoas honradas”. Os bordéis do Recife, aliás, frequentados por homens e mulheres de muitas raças e países, foram classificados como “os mais vis do mundo”, num relatório enviado à direção da Companhia, em 1641.

    Mulheres de Tejucupapo

    Famintos, encurralados no Recife e em Itamaracá pelas tropas pernambucanas, um grupo de flamengos planejou, em 1646, uma sortida para conseguir alimentos — frutas, farinha, gado, e o que mais fosse possível. Eles decidiram assaltar o povoado de Tejucupapo num domingo, sabendo que, nesse dia, os homens costumavam ir vender seus produtos numa feira, em outro local. Mas foram frustrados porque quatro Marias — Maria Camarão, Maria Quitéria, Maria Clara e Maria Joana — chamaram suas companheiras à luta. Com tachos e panelas de água fervente misturada com pimenta, entre outras armas improvisadas, e com apoio dos poucos homens que haviam ficado por lá, elas puseram os assaltantes para correr.


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    O garoto pobre que se tornou um dos homens mais ricos da capitania colaborando com os holandeses, comandou o levante contra eles

    Nascido na Ilha da Madeira, em 1610, João chegara aqui ainda garoto, fugindo da pobreza, e jamais falava da sua infância. Mas seus inimigos afirmavam que sua mãe teria sido uma mulata rameira, apelidada “a Benfeitinha”, e seu pai um ladrão degredado. Após a invasão holandesa, em 1630, ele se abrigara no Arraial do Bom Jesus, onde trabalhara como açougueiro. E começara a fazer fortuna após a queda do Arraial, em 1635, colaborando com os invasores, para dez anos depois comandar a rebelião contra eles.

    Quando os flamengos capitularam, em 1654, o madeirense, aos 44 anos de idade, já alcançara quase tudo que almejara na vida, faltando-lhe, apenas, o título mais ambicionado: governador de Pernambuco…

    SUBINDO NA VIDA

    A carreira de João deslanchara, de fato, após a chegada Maurício de Nassau, em 1637. Com a retirada de oito mil pernambucanos para a Bahia, decretada pelo capitão-mor Matias de Albuquerque, dois anos antes, dezenas de engenhos haviam sido abandonados. Então, Nassau os leiloara. E muitos holandeses, entre os quais conselheiros, militares, comissários, fiscais e até mesmo religiosos, os arremataram, a crédito, certos de que enriqueceriam facilmente.

    O sonho, porém, acabara depressa. Agricultura não era ocupação para os flamengos, acostumados à vida urbana. Quase todos revenderam as propriedades ou transferiram sua administração para quem tinha experiência no ramo. Assim, João se tornara administrador do Engenho do Meio, do capitão Jacob Stachouwer, situado na fértil várzea do Capibaribe. E mais adiante o comprara, a crédito, juntamente com os engenhos São Carlos, Sant’Ana e Ilhetas, do mesmo proprietário e do fiscal Nicolau Ridder.

    Mas não ficara nisso. Aos poucos, com mimos e presentes, João conquistara a simpatia de Nassau. E, valendo-se do seu apoio, contratara com o governo um serviço de captura de escravos fugidos, à razão de 130 réis cada um, ganhando muito dinheiro com esta operação. Depois, casara-se com a jovem Maria César, filha de Francisco Berenguer de Andrade, também madeirense e um dos proprietários mais ricos do País, e de Joana de Albuquerque, da família dos donatários da capitania. Assim, ele ingressara na aristocracia pernambucana. E sua cartada seguinte fora a mais ousada de todas: comandar a expulsão dos holandeses!

    PLANEJANDO O LEVANTE

    Era Nassau, apenas, que conseguia manter a paz em Pernambuco. Após sua partida, em 1644, a insatisfação dos senhores de engenho com a Companhia das Índias explodira.

    Primeiramente, esses proprietários, que se julgavam descendentes da pequena nobreza de Portugal, haviam perdido prestígio e poder político com a troca das antigas câmaras municipais, onde só eles se elegiam vereadores, por câmaras de “escabinos”, nas quais eram obrigados a conviver com judeus, comerciantes e artesãos. Depois, havia as taxas, impostos e fretes maiores do que no tempo do rei. Em seguida, vinham as dívidas contraídas para reequipar engenhos destruídos pela guerra ou pagar as prestações das propriedades adquiridas em leilão, sobre as quais eram cobrados juros de até 42% ao ano. Por fim, os artigos finos holandeses como velas de cera, selas, chapéus, armamentos e tecidos, que antes não havia por aqui, também eram consumidos com avidez. E haja endividamento. O próprio João Vieira, por exemplo, devia 540 mil florins — fortuna que daria para pagar, com sobra, a Mauritshuis, o luxuoso palácio de Maurício de Nassau, erguido em Haia. Então, em junho de 1645, à frente de outros proprietários, ele proclamara a rebelião.

    A vitoriosa “guerra da liberdade divina”

    O plano era realizar uma campanha fulminante, de curtíssima duração. Ela começaria com a tomada do porto de Nazaré, no Cabo, por uma tropa formada por antigos combatentes como Felipe Camarão, Henrique Dias, André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno, então exilados na Bahia. A esquadra comandada pelo almirante Salvador Correia de Sá, que navegava ao longo da costa, protegendo os navios portugueses, bloquearia o porto do Recife. E as praças inimigas seriam capturadas com apoio do povo do interior, extremamente católico, chamado a lutar em nome da fé, para livrar o Brasil dos “heréticos” — ou seja, dos protestantes calvinistas.

    Quase nada, porém, dera certo. Salvador Correia negara-se a fazer o bloqueio sem ordem do rei. As tropas da Bahia não chegaram dentro do prazo previsto. Mas, quando os holandeses mandaram uma poderosa coluna atacar os rebeldes, para surpresa geral foram derrotados, numa batalha travada em Vitória de Santo Antão, no dia três de agosto.

    Então, a guarnição mercenária de Nazaré entregara o porto em troca de dinheiro. Os “baianos” arribaram, finalmente, ajudando a bater o inimigo mais uma vez, no dia 17, no Engenho Casa Forte. E, em três meses, os flamengos voltaram a ficar encurralados no Recife, em Itamaracá e em Fernando de Noronha, como nos primeiros tempos da invasão.

    LÍDER POLÊMICO

    A liderança de João Vieira, porém – do qual muitos já não gostavam, pela sua prepotência – passara a ser questionada com a volta dos exilados da Bahia. O problema era os engenhos abandonados pelos retirantes de 1635 e leiloados pela Companhia das Índias. As propriedades que estavam com judeus e flamengos foram logo devolvidas aos antigos donos. Mas as adquiridas por luso-brasileiros tornaram-se uma fonte de atritos; e Vieira, o grande inimigo dos prejudicados. Houvera até um atentado contra sua vida, em 1646. E assim ele perdera o comando da insurreição, que passara para o general português Francisco Barreto de Menezes, em 1648. Mas mantivera o seu terço (batalhão). E bastante influência.
    Quando a guerra acabou, em 1654, o madeirense manteve a posse dos seus engenhos, não pagou suas dívidas (pelos seus cálculos, os holandeses é que lhe deviam mais de cem mil florins) e se apossou de muitos prédios no Recife. E, como recompensa pelos seus serviços, recebeu, ainda, os títulos de capitão-mor do Pinhal, comendador da Ordem de Cristo e membro do Conselho de Guerra luso, além de ser nomeado governador do Maranhão e de Angola. Mas nunca governou Pernambuco, como tanto queria.

    João Fernandes Vieira morreu em 1681, aos 71 anos de idade, em Olinda, com seus feitos exaltados por frei Manoel Calado no livro “O valeroso lucideno” (“O valente português”). E, no dia 6 de agosto de 2012, a Lei Federal nº 12.701 determinou que seu nome fosse inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, conhecido como “Livro de Aço”, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, ao lado de Felipe Camarão, Henrique Dias, Antônio Dias Cardoso, André Vidal e Barreto de Menezes.
    Na próxima semana trataremos do índio Camarão.

    São Maurício, protetor dos devedores

    O conde Nassau defendia os produtores endividados. Pelos seus cálculos, os pernambucanos deviam à Companhia das Índias sete milhões e meio de florins, ou 75 tonéis de ouro, em 1642. Mas, devido às altíssimas taxas de juros, já deviam treze milhões, ou 130 tonéis, em 1644. Além disso, “os salários, emolumentos, multas, percentagens, extorsões e comissões dos secretários, notários, procuradores, solicitadores, tradutores, meirinhos, mensageiros, executores e outros oficiais, elevam-se tanto que duvido que haja lugar no mundo em que tanto se lhes pague”, ele reclamou numa carta à Companhia. Quando se foi, a pressão sobre os devedores aumentou e a revolta explodiu.

    A Batalha das Tabocas

    Os pernambucanos tinham apenas 1.200 homens, umas 300 espingardas e outras tantas espadas enferrujadas, além de facões, arcos, flechas e paus com ponta afiada. E os flamengos até acharam graça, pois “a maior parte daquela gentalha e canalha se compunha de criados, mulatos e quejandos, gente que não tinha experiência no manejo do mosquete e do arcabuz, mais própria para serem escravos do que para a guerra”, como relatou um deles. Pois aquela “gentalha”, comandada pelo capitão Antônio Dias Cardoso, os atraiu para um tabocal – espécie de mata de bambus, cheia de espinhos – onde lhes aplicou uma tremenda sova


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    Além de um grande guerreiro, um líder político influente durante a guerra contra a Holanda

    Antônio Felipe Camarão já fora condecorado por dois reis. Em 1635, recebera de Felipe III da Espanha o título de “dom” e o hábito de Santiago. Em 1641, ganhara D. João IV, de Portugal, o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo, o título de fidalgo com brasão de armas e o posto de capitão-mor de todos os índios do Brasil. E fizera por merecer todas essas honrarias, não apenas pelo desempenho nos campos de batalha, como também pela influência que exercia sobre várias tribos, levando-as a apoiar os luso-espanhóis na guerra contra os holandeses, que invadiram Pernambuco em 1630.

    Com a vitória flamenga e a chegada de Maurício de Nassau, em 1637, contudo, Camarão fora obrigado a asilar-se na Bahia, ao lado de outros combatentes veteranos como Henrique Dias e André Vidal de Negreiros. E por lá ficara até 1644, quando chegou a notícia de que Nassau voltara para a Europa. E sem o conde, o único em condições de manter a paz no Brasil Holandês, era certo que os pernambucanos logo se rebelariam.
    Então, ele se pintara de novo para a guerra…

    GRAVE E PONTUAL
    Nascido numa aldeia indígena do Rio Grande do Norte, no início do século, ele ganhara o nome de Poti, que na língua potiguar significa “camarão”. Convertido, porém, ao catolicismo, fora batizado, na adolescência, com o nome cristão de Antônio. E adotara, também, o Felipe, em homenagem ao então soberano espanhol. Com os padres jesuítas, Poti aprendera a ler, a escrever, e se tornara um sujeito sério e compenetrado — ou, “mui grave e pontual, que se quer mui respeitado”, segundo um cronista da época. Considerava, por exemplo, de suma importância tanto a correção gramatical quanto a pronúncia perfeita. E chegava a usar intérprete ao tratar com pessoas de nível superior ao dele, porque, falando em português, “podia cair em algum erro ao pronunciar as palavras, por ser índio”.

    Quando os holandeses chegaram, Poti chefiara com bravura seus irmãos de raça engajados nas tropas luso-espanholas, sempre ao lado da mulher, Clara Camarão, tão guerreira quanto ele. E desempenhara, também, um importante papel político, num tempo em que os indígenas ainda formavam grande parte da população brasileira.

    ÍNDIOS E EUROPEUS
    As relações com os nativos foram de suma importância para os europeus, no início da colonização. Os recém-chegados, por exemplo, dependiam deles para lhes fornecer os alimentos — peixes, caça, farinha de mandioca — que não eram capazes de adquirir sozinhos. Também utilizaram seus serviços na exploração do pau-brasil e, em seguida, nos engenhos e canaviais, antes da importação maciça de escravos africanos. Um século depois já não havia tanta dependência, mas a chegada dos holandeses os colocara de novo em primeiro plano. Aliados a um lado e ao outro, os índios pesariam bastante na balança da guerra.

    Os flamengos tinham plena consciência da importância dos nativos. Já na primeira tentativa de invasão, em 1624, levaram alguns deles da Paraíba e da Bahia para a Holanda, onde os educaram e aculturaram. E quando retornaram, seis anos depois, trouxeram-nos de volta para usá-los como intermediários nos primeiros contatos com seus irmãos de raça — inclusive com os ferozes tapuias, que viviam no interior e eram inimigos mortais dos portugueses e dos tupis do litoral.
    Visando formar alianças, já em 1629 — um ano antes, portanto, de desembarcarem em Pernambuco —, os holandeses haviam proclamado o direito dos “brasilianos” à liberdade. E durante o governo de Nassau a relação com eles chegara ao seu melhor nível. “Da amizade com os índios depende em grande parte o sossego e a manutenção da colônia do Brasil”, escrevera o conde, num relatório enviado à Companhia das Índias, em 1644. E ainda: “Deve-se permitir que eles conservem a sua natural liberdade, vivam do modo que entenderem e trabalhem onde quiserem”.

    A disputa pelo apoio indígena, enfim, era grande. Apesar de os europeus, em geral, fazerem ressalvas ao seu desempenho no campo de batalha.

    VALIOSOS NA GUERRA
    Segundo o próprio Camarão, os índios eram soldados “precipitados, inquietos e sem fleuma”. Ou seja, querendo lutar, lutavam; se não, desertavam, sem constrangimento. Tampouco tinham disciplina, correndo à vontade de um lado para outro, nos combates. “É coisa estranha de se ver dois ou três mil homens nus flechando uns aos outros, com grandes assobios e gritos”, escreveu o português Pero de Gândavo. Mas, “para descobrir e assegurar caminhos”, seu valor era imenso. Eles conduziam os europeus “pelos lugares mais ásperos e difíceis, passavam a nado os soldados que não ousavam aventurar-se nos grandes rios e cortavam os espinheiros e silvados espessos”. Também eram muito eficientes no transporte de cargas, na construção de pontes e jangadas e no fornecimento de víveres. Por fim, eram “desempenados e ágeis”, e “na velocidade da carreira, dificilmente cedem às feras”.

    Frei Manoel Calado, o principal cronista da guerra contra os flamengos, chegaria a afirmar que a aliança com certas tribos indígenas fora “a causa e o principal instrumento de os holandeses se apoderarem da capitania de Pernambuco, e de a conservarem por tanto tempo”. Mas, se isto é verdade, é certo, também, que outras tribos tiveram papel decisivo na sua expulsão. E à frente delas estava Poti.

    Um autêntico herói do povo brasileiro

    Voltando da Bahia, em 1645, Felipe Camarão participou de inúmeros combates sob as ordens de João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros. E ajudou a manter os holandeses encurralados, mais uma vez, sem poder por os pés fora do Recife. Exatamente como fizera anos atrás, na “guerra velha”, sob o comando de Matias de Albuquerque. Cansados, porém, de passar fome, os flamengos resolveram tomar a iniciativa na guerra, em 1648, e saíram para tentar capturar Nazaré, o principal porto marítimo utilizado pelos pernambucanos, no Cabo de Santo Agostinho. Mas foram interceptados no morro dos Guararapes, no dia 18 de abril.

    Nessa batalha, os flamengos estavam em número maior, além de muito melhor armados, e Poti e seus guerreiros tiveram um papel fundamental. Os europeus, calçados com longas botas e vestindo pesados uniformes, foram atraíram pelos índios para um manguezal, onde atolaram na lama, e lá destroçados a flechadas e golpes de tacape.

    No final, a vitória na primeira batalha dos Guararapes foi brasileira. Mas teve um alto custo. Em consequência dos ferimentos recebidos, segundo uns, ou de uma febre palustre que adquiriu por lá, segundo outros, Poti morreu pouco tempo depois, no dia 24 de agosto, deixando seus títulos e o comando das tropas indígenas para o seu sobrinho, Diogo Pinheiro Camarão.

    Em 2012, Felipe Camarão teve seu nome assentado no “Livro de Aço”, que está no Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília, ao lado de outros combatentes da Restauração. Mas, muito antes disso, ele já estava inscrito na memória popular como um autêntico herói brasileiro.

    Elogio sincero

    O valente Poti recebeu homenagens até dos seus inimigos. Cristovão Arciszewski, por exemplo, oficial polonês a serviço da Companhia das Índias, no final da sua carreira declarou publicamente: “Há quarenta anos milito na Polônia, na Germânia e em Flandres, ocupando sempre postos honrosos, e somente veio abater-me o orgulho e desonrar-me um índio brasiliano de nome Camarão”.

    População indígena

    Calcula-se que no início da colonização havia de dois a quatro milhões de índios no Brasil, divididos em centenas de tribos falantes de línguas oriundas de dois troncos principais, o Tupi e o Macro-Jê. Nos tempos de Felipe Camarão já seriam bem menos, devido aos massacres e as doenças introduzidas pelos europeus. E em 2010 eram novecentos mil, segundo dados do censo do IBGE daquele ano, divididos em 305 etnias e falando 274 idiomas. Embora sua população venha aumentando nas últimas décadas, eles continuam sofrendo violências, perda das suas línguas e costumes, e “grilagem” das suas terras em muitas regiões do País. Inclusive em Pernambuco, onde restavam apenas dez mil, em 2010, já bastante aculturados e mantendo a duras penas o que restou dos seus territórios, línguas e costumes.


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    O governador dos pretos e mulatos do Brasil fez coisas inacreditáveis para garantir o futuro das suas quatro filhas

    Henrique Dias fora mais um que crescera e aparecera devido à invasão holandesa. Em tempos normais, homens como ele, João Vieira, Felipe Camarão, André Vidal etc. — pretos, mestiços, índios ou brancos de origem plebeia —, não teriam vez no aristocrático mundo luso-espanhol daquela época. Mas a sua extrema coragem de soldado e o papel de líder entre os da sua cor lhe abriram caminho em meio à guerra. Por mais de vinte anos pelejara na linha de frente, chegando a perder a mão esquerda, entre muitos ferimentos recebidos em combate. Em troca, além ser nomeado governador dos pretos e mulatos do Brasil, fora agraciado pelo rei da Espanha com o título de fidalgo, pelos serviços prestados.

    Ao fim e ao cabo, porém, essa honraria nunca fora oficialmente reconhecida, nem outros prêmios devidos lhe foram entregues. Então, em 1654, após a capitulação flamenga, ele entendeu que precisava seguir lutando para receber o que merecia. E, com isso, garantir o bem estar e bons casamentos para as suas quatro meninas…

    NA PRIMEIRA LINHA
    Dias, que também atendia pelo apelido de “Boca Negra”, era um preto forro — ou seja, liberto — e não precisava ter tomado partido na guerra. Mas, à frente de alguns homens como ele, oferecera seus serviços ao capitão-mor Matias de Albuquerque, em 1633. Em outro quadro, a oferta teria sido recusada. Com as rebeliões de escravos se sucedendo frequentemente, os brancos não julgavam um bom negócio armar negros e incentivá-los a lutar. Porém, num momento em que a guerra contra os flamengos ia muito mal, aquela adesão fora uma benção.

    A bravura do Boca Negra tornara-se rapidamente lendária. Já nos seis primeiros meses ele participara de diversos combates, matara muitos inimigos e tomara nada menos que cinco tiros de mosquete. Mas sarava com rapidez, tratando das suas feridas com lã de carneiro frita em azeite de peixe, e jamais esmorecia. Em 1637, por exemplo, numa batalha em Porto Calvo, sua mão esquerda fora atingida e ele a mandara cortar, temendo que a bala estivesse envenenada — sem abandonar o combate! E ganhara fama e reconhecimento por isso.

    PRESTÍGIO AMEAÇADO
    Em 1637, porém, Maurício de Nassau chegara e os holandeses, além de, finalmente, tomar Pernambuco, estenderam seus domínios de Sergipe ao Maranhão. Dias, então, exilara-se na Bahia, ao lado de outros combatentes veteranos como o potiguar Felipe Camarão, o paraibano André Vidal de Negreiros, o cearense Martim Soares Moreno e os pernambucanos Antonio Dias Cardoso e Francisco Rebelo. E lá estava quando, no ano seguinte, o rei Felipe III mandara que lhe dessem o título de fidalgo e um soldo mensal.

    Esses prêmios, contudo, nunca chegaram. Ele ganhara apenas a patente de cabo e o comando de duas centenas de negros, à frente dos quais fora engajado na armada chefiada pelo Conde da Torre, enviada da Espanha atacar os flamengos, em 1640. Mas aquela esquadra fora destroçada no mar, pela marinha de Nassau, e o Boca Negra desembarcado no Rio Grande do Norte, de onde voltara para a Bahia queimando canaviais e engenhos, e matando muitos inimigos pelo caminho.

    Naquele mesmo ano, entretanto, Portugal se libertara da dominação espanhola, que durava desde 1580, e estabelecera uma trégua com a Holanda. E Dias permanecera em terras baianas, ocupado em assaltar quilombos e recapturar escravos fugidos, até os pernambucanos se levantarem por conta própria contra o domínio holandês, em 1645. Então, retornara à sua terra e fora logo participando da batalha do Engenho Casa Forte, no dia 17 de agosto, onde o atingiram novamente. Dessa vez, numa perna. E ele, mesmo ferido, continuara pelejando.

    Em 1647, com trezentos homens, o Boca Negra, ao lado de Felipe Camarão, expulsara os holandeses do Rio Grande do Norte; e no ano seguinte participara da primeira batalha dos Guararapes, onde recebera seu oitavo ferimento. Esse, nas costas. Mas sobrevivera, como sempre, para se ver desprestigiado pela primeira vez.

    LUTA POLÍTICA
    Ora, até então, todos os seus chefes tinham-no tratado com estima e cortesia. Porém, o novo comandante, general Francisco Barreto, não lhe tinha respeito. Nem sequer lhe pagava o soldo. E Dias, revoltado, fora à luta novamente, mas em outro campo, o da política. Em 1650, ele escrevera diretamente ao rei de Portugal, queixando-se do tratamento recebido. E D. João IV o atendera, recomendando a Barreto que tanto o governador da gente preta quanto o capitão-mor dos índios — Diogo Pinheiro, que assumira o posto do tio, Felipe Camarão, morto em 1648 — “fossem mantidos animados e contentes por todas as vias, com palavras e obras”.

    Em 1654, após a vitória final, Henrique Dias deveria receber a comenda da Ordem de Cristo e uma parte justa na divisão das propriedades tomadas aos flamengos, segundo o combinado, afora dois mil cruzados para distribuir com a sua tropa. Mas, nenhuma dessas promessas fora cumprida. O Boca Negra, porém, jamais esmorecia. E, em 1656, “pobríssimo”, ele teve a audácia de ir a Portugal cobrar pessoalmente o que lhe era devido, portando certidões juradas e justificadas dos trabalhos realizados.

    Um combatente vitorioso na guerra e na paz

    Nem o próprio João Fernandes Vieira “foi tão contínuo na guerra, nem teve tão bons sucessos” como Dias, segundo ele próprio alegou, nas suas petições. E venceu, desta vez, ganhando as casas e olarias que haviam pertencido aos flamengos Vanufell e Gaspar Coque, e as terras anexas a elas — ou seja, boa parte do atual bairro da Boa Vista. Além disso, a rainha D. Luíza, regente de Portugal após a morte de D. João IV, deu-lhe um novo alvará do título de fidalgo concedido por Felipe III, da Espanha, em 1638, além de 1.600 réis por mês e um alqueire de cevada por dia. Mas ele não se satisfez. Em benefício das suas filhas, pediu “tenças para comodamente acharem soldados honrados que casem com elas”. E a rainha estabeleceu pensões de vinte a trinta mil réis para cada futuro genro (embora o futuro sogro quisesse cinquenta).

    Dias também cobrou a alforria dos escravos que guerrearam contra os flamengos e recompensas para os pretos e pardos livres que serviram no seu terço (batalhão), além da manutenção dessa tropa, enquanto não houvesse paz definitiva com a Holanda. E ganhou tudo. O terço dos “Henriques”, aliás, formado por pretos livres, seria mantido até 1817, quando D. João VI mandou dissolvê-lo por ter apoiado a revolução ocorrida em Pernambuco, naquele ano.

    Na viagem de volta, o Boca Negra recebeu seu nono ferimento em combate, quando o navio em que viajava foi atacado por “pixilingues” — piratas que tinham por base a cidade de Vlissingen, nos Países Baixos. Mas escapou, outra vez, e viveu o bastante para ver as suas quatro filhas bem casadas, até morrer, em 1662.

    Em 2002, seu nome também foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, em Brasília, ao lado de Felipe Camarão, João Fernandes Vieira, Antonio Dias Cardoso e André Vidal de Negreiros, do qual trataremos na próxima semana.

    Com embargo

    Felipe III, rei da Espanha, mandou que fosse dado a Henrique Dias, em 1638, “sem embargo”, o título de fidalgo e 40 escudos por mês. Porém, os conselheiros da Mesa de Consciência e Ordens sustaram a medida. Antes, era preciso indagar sobre a “limpeza de sangue” do candidato. Ele não podia ser de “infecta nação”, aparentado com mouros, judeus ou africanos. E também devia ser “de qualidade”, com ascendentes que jamais houvessem exercido “ofícios mecânicos”. “Sem embargo”, só com ordem do papa. E essa ordem nunca chegara.

    Vizinhança agitada

    Durante o cerco ao Recife, entre 1645 e 1654, a casa de Henrique Dias era uma das “estâncias” que compunham o anel em torno da cidade. Ficava tão perto das linhas inimigas que ele duelava à bala, no quintal, com os flamengos que iam até lá em busca de cajus. E seus homens costumavam cortar as cabeças dos inimigos mortos e desfilar com elas, cantando e dançando pelas redondezas. O outro lado, por sua vez, fazia o mesmo, cortando cabeças de negros e índios e usando-as como bolas para jogar.


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    Ele chegou a desafiar o rei de Portugal, para forçá-lo a apoiar Pernambuco na luta contra Holanda

    André Vidal tivera uma infância pobre e obscura, tal como seu grande adversário político, João Fernandes Vieira. Dizia André que seu pai, o português Francisco Vidal, fora um pequeno agricultor, fornecedor de cana para engenhos na Paraíba. Mas os inimigos dele juravam que o velho Francisco teria sido um carpinteiro, ou seja, um trabalhador manual, categoria apenas um pouco acima dos escravos, naquele mundo onde o “berço” era importantíssimo. Assim como os inimigos de João garantiam que ele era filho da “Benfeitinha”, uma mulata de má vida da Ilha da Madeira, e de um ladrão para lá degredado.

    Porém, com muito trabalho, astúcia e sorte, André e João foram capazes de chegar ao topo, aproveitando a janela de oportunidades aberta pela invasão holandesa. E, após a capitulação dos flamengos, em 1654, pela qual foram os maiores responsáveis, eram os homens mais poderosos de Pernambuco. Acima deles só o general português Francisco Barreto de Meneses, que a todos comandava em nome do rei D. João IV. Mas Barreto logo iria embora, e a disputa entre ambos, que já se estendia por quase nove anos, ficaria ainda mais acirrada. Qual dos dois, por exemplo, seria nomeado o próximo governador desta capitania?

    Essa questão seria resolvida com a intervenção do padre Antônio Vieira…

    O GUERRILHEIRO
    Se o começo e o fim dos seus caminhos eram semelhantes, o meio, porém, era bem distinto. João, de ajudante de açougueiro, tornara-se um grande proprietário, negociando com os holandeses; para dez anos depois dar início ao levante contra os seus antigos associados. Já André fizera toda sua carreira por dentro do exército, ascendendo de ajudante a mestre de campo (general) e lutando sem parar durante 24 anos.

    André nascera na vila de Filipéia de Nossa Senhora das Neves (hoje, João Pessoa), em 1606; e em 1630 se alistara nas tropas do capitão-mor Matias de Albuquerque, em guerra contra os invasores flamengos. Cinco anos depois ele acompanhara a grande retirada de oito mil pernambucanos para o sul, decretada por Matias; deixando para trás, inclusive, a sua amada, a bela Ana Paes. E estabelecera-se na Bahia, onde se tornara um perigoso “campanhista”, comandando uma das tropas que faziam “entradas” e “correrias” em Pernambuco.

    Vidal e outros capitães como Felipe Camarão, Henrique Dias, Francisco Rebelo e Paulo Souto Maior, abriam caminho através de matas virgens à frente de pequenos grupos de homens, tendo apenas “o ombro e a mochila como alforje e carruagem”. Movimentando-se sem parar, eles atacavam de surpresa, pondo fogo em engenhos e canaviais, confiscando gado e escravos, e prejudicando seriamente a produção de açúcar no território sob controle da Companhia das Índias.

    Mas, além de campanhista, André também assumira, na Bahia, o papel de líder político. E chegara a peitar, inclusive, o próprio D. João IV, que estava numa situação delicadíssima após conduzir, em 1640, a libertação do seu reino da dominação espanhola, iniciada em 1580.

    O POLÍTICO
    O fato é que a maioria das nações católicas europeias, metidas, ao lado da Espanha, numa guerra contra as nações protestantes que já durava quase trinta anos, tardava em reconhecer a independência de Portugal. O irmão do rei, D. Diniz, preso numa masmorra castelhana, escrevia cartas e mais cartas pedindo rapidez num armistício que lhe devolvesse a liberdade. A esquadra flamenga, fundeada na boca do rio Tejo, a pretexto de defender Lisboa de um ataque espanhol, poderia facilmente bloquear a capital portuguesa. E D. João, coitado, preocupado em manter a coroa na cabeça, vacilava em apoiar os pernambucanos rebeldes, com medo de desagradar à poderosa Holanda, que lhe dava suporte.

    Na corte, aliás, havia muitos defensores da tese de que Pernambuco deveria ser entregue de uma vez em troca de apoio político, militar, e de alguma prata. Entre eles, o respeitadíssimo padre Antônio Vieira, uma figura impressionante, talvez o maior orador em língua portuguesa de todos os tempos.

    Mas, se não ousava afrontar abertamente a Holanda, o rei também não reprimia os rebeldes. Aqui acolá, até lhes dava uma mãozinha. Em agosto de 1644, por exemplo, André chegara ao Recife portando uma carta de D. João e outra do governador da Bahia, pedindo ao governo local que lhe desse salvo-conduto para visitar amigos e parentes.

    “André Vidal apareceu aqui sob o frágil pretexto de dizer adeus ao velho pai, um pobre carpinteiro da Paraíba, a quem ele estava tão ansioso para rever quanto estaria eu de ver o rei do Congo”, escrevera, então, um conselheiro holandês, num relatório para Companhia. Mas a autorização fora dada e usada pelo paraibano para fazer diversas reuniões com proprietários locais. Dez meses depois começara o levante.

    Uma guerra longa e uma difícil disputa interna

    Em julho de 1645, André Vidal retornara da Bahia com suas tropas, ao lado de Henrique Dias, Felipe Camarão e Martim Moreno. E, juntamente com as milícias chefiadas por João Fernandes Vieira, em três meses eles encurralaram os flamengos no Recife e em Itamaracá. Ao mesmo tempo, começara a disputa entre ele, líder dos “baianos”, e João Vieira, representando os “pernambucanos”. Principalmente, em função da delicada questão dos engenhos abandonados, anos atrás, pelos emigrados de Pernambuco, no êxodo comandando por Matias e Albuquerque. As propriedades que estavam em mãos de holandeses e judeus foram logo devolvidas aos antigos donos. Mas o que fazer com as outras, legalmente adquiridos por luso-brasileiros, como o próprio João Vieira? Essa pendenga duraria décadas.

    A guerra contra os holandeses, por sua vez, também se tornou uma questão demorada e complexa. Porque, se os brasileiros dominavam o interior do País, o Atlântico era território inimigo. Pelo mar, os sitiados continuavam a ser abastecidos. E, mesmo passando muita fome e penando com várias doenças, por falta de frutas e verduras frescas, eles não se entregavam. Esta situação perdurou até a Inglaterra – dona, também, de uma marinha poderosa – declarar guerra aos Países Baixos, em 1652, e prejudicar a navegação flamenga.

    Foi André Vidal que teve a honra de levar a D. João IV a notícia da capitulação, ocorrida em janeiro de 1654; ganhando, como prêmio, o governo do Maranhão. E lá estava ele, em 1655, quando recebeu o maior elogio da sua vida, considerando-se que partiu do padre Antônio Vieira – que até pouco tempo, inclusive, era seu adversário político.

    “Tem Vossa Majestade mui poucos nos seus reinos como André Vidal” o padre escreveu ao rei. “Eu o conhecia mais de fama que de vista (…) e digo a V. M. que ele está perdido no Maranhão, e que não estivera a Índia perdida se V. M. lha entregara”. Talvez por conta disso, o paraibano foi escolhido para governar Pernambuco, entre 1657 e 1661. Depois, comandou Angola, entre 1661 e 1666. E, novamente, Pernambuco, em 1667. Ao passo que João Fernandes Vieira jamais esteve à frente desta capitania.

    André Vidal morreu em Goiana, no ano de 1680. E é outro, entre os restauradores, a ter seu nome inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, em Brasília.

    Peitando o rei

    “Quando Vossa Majestade quiser castigar meu atrevimento em fazer guerra aos holandeses, havendo o senhor dito que os tratássemos com paz e amizade, eu pagarei meu erro, se julgar que errei”, assim André Vidal escreveu a D. João IV, que vacilava em apoiar os pernambucanos rebeldes. “E quando V. M. não se der por bem servido de mim, me despeça. Não faltará um príncipe cristão sob cuja bandeira eu arrisque minha vida e derrame meu sangue”. E ainda: “Com o encarecimento dos aflitos, mas não dos medrosos, pedimos à V. M. que nos acuda, com tal brevidade que não nos obrigue a buscar em outro príncipe católico o que de V. M. esperamos”.

    Os “valentões” e o “Judas do Brasil”

    O padre Antônio Vieira tinha grande influência sobre o rei e mais ainda sobre a rainha, D. Luiza. E defendia a entrega de Pernambuco aos flamengos, em troca de apoio contra os espanhóis. Ele costumava inquirir: “Se Portugal e Espanha, juntos, não puderam resistir à Holanda, como há de Portugal resistir, sozinho, à Holanda e Espanha?”. Alguns patriotas lisboetas, porém, apelidados de “valentões”, chamavam-no de “Judas do Brasil”. E diziam que, sem a posse daquele país, D. João não seria rei de nada.


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    Ele tentou fazer um acordo de paz com os brancos, após um século de lutas, mas o resultado não foi o esperado

    “Sem negros, não há Pernambuco”, já dissera o padre Antonio Vieira. E estava certíssimo. Nesta capitania, que vivia da produção de açúcar, eles eram os pés e as mãos dos brancos. Até os holandeses que, quando aqui estiveram, enfrentaram dilemas de ordem moral e religiosa para assimilar a prática do cativeiro, não tardaram a aderir a ela. Daí o perigo representado por Palmares, o maior quilombo o País.

    Aquele ajuntamento independente de escravos fujões, mulatos e índios significava mais do que uma afronta à soberania da coroa portuguesa. Além de ocupar terras valiosas, sua presença era uma ameaça às vidas e aos bens dos moradores das vilas e engenhos próximos. E o pior de tudo: ele fazia os cativos sonharem com a liberdade. Era um estímulo permanente à indisciplina; um chamado constante à rebelião; um perigoso canto de sereia, enfim, que precisava ser silenciado. Daí as dezenas tentativas de destruí-lo, ao longo de um século. Todas mal sucedidas.

    Em 1677, porém, uma expedição comandada pelo experiente capitão Fernão Carrilho teve melhor sucesso e impôs muitas perdas a Ganga Zumba, o chefe principal do quilombo. Naquele confronto, um filho dele, Toculo, morrera e outros dois, Zambi e Acaiene, foram capturados, juntamente com uns vinte sobrinhos e netos. Seus dois principais generais, Ganga Muíça e Acaiuba, também foram mortos. E ele mesmo levara uma flechada, mas conseguira fugir pela mata, deixando para trás sua espada e uma pistola dourada.

    Então, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, aproveitara o momento de fraqueza do líder quilombola para lhe fazer uma proposta. Fora algo novo, jamais, até então, cogitado: firmar um acordo de paz! E Ganga Zumba aceitara, sem saber que, por causa disso, um jovem chefe apelidado de Zumbi se rebelaria contra ele…

    TROIA NEGRA
    Chamado pelos negros de “Angola Janga” (“Angola Pequena”, em língua bantu), o quilombo dos Palmares existia há mais de cem anos. Mas começara a ganhar importância quando os holandeses invadiram Pernambuco, em 1630, e o caos da guerra favorecera a fuga de escravos. Ele chegara a ocupar um vasto território, que ia do cabo de Santo Agostinho ao rio São Francisco, estendendo-se por muitas léguas pelo interior adentro. E abrigava de vinte a trinta mil “almas”, divididas em vários povoados chamados de “mocambos”, ou “cercas”. Lá, num terreno extremamente fértil, os palmarinos viviam muito bem da caça, da pesca, da coleta de frutas e do plantio de diversos cereais e hortaliças, além da “liamba”, “maconha” ou “fumo de Angola”, que os alimentava de sonhos. Também praticavam a cerâmica e a metalurgia; fiavam panos; e, em tempos de paz, comerciavam com as povoações vizinhas, cambiando alimentos e objetos de barro por ferramentas, armas e munição.

    A língua que falavam era própria, resultante de uma mescla dos idiomas de muitas raças e culturas, e religião oficial era um arremedo de catolicismo. Mas as festas eram africanas, com batuques ouvidos à grande distância e dançarinos animados pela liamba e por um tipo de vinho extraído dos cocos das muitas palmeiras que havia na região. “Folga, negro, branco não vem cá”, eles cantavam. “E se vier, pau há de levar”.

    NOVOS TEMPOS
    Os holandeses foram os primeiros a combater Palmares seriamente. Sem resultado. E, após a Restauração, ele se tornara o maior pesadelo dos colonos e dos governos portugueses da capitania. Sua prosperidade causava medo. Os prejuízos provocados com as fugas de escravos e outras tropelias eram cada vez maiores. E parecia invencível, até Ganga Zumba (“grande senhor”, em bantu) ser batido e aceitar a oferta de Pedro de Almeida.

    Em vez de mandar degolar os prisioneiros capturados, como de costume, o governador, espertamente, oferecera libertá-los, além de cessar com as hostilidades. Em troca, os palmarinos deveriam se submeter a ele e mudar-se para a região de Cucaú, a cinco léguas de Serinhaém, coberta de matas virgens, mas onde poderiam ter “comércio e trato” livre com a vizinhança. E teriam, também, de devolver todos os escravos fugidos, não nascidos em Palmares, que lá se abrigavam.

    Muitos brancos criticaram aquele tratado, que lhes parecera favorável demais aos negros. Outros julgavam desonroso qualquer acordo com aquela “infesta canalha”. Mas a nova postura de negociar, em vez de agredir, tinha um bom motivo por trás: a ocupação de terras.

    Ora, até então, a luta com os palmarinos se travara apenas pela posse de escravos. Naquele tempo, porém, o território onde eles viviam – considerado, unanimemente, o melhor da capitania – já era muito cobiçado. Para ocupá-lo, entretanto, era preciso tirar os negros de lá, algo que jamais se lograra antes e que, certamente, nem tão cedo se lograria. Então, chegara o momento de trocar a força bruta pela astúcia.

    Um plano bem urdido, derrotado pelo imprevisto

    Em junho de 1678, arribara ao Recife uma comissão quilombola que causara grande alvoroço. Portando arcos e flechas, os negros vinham quase nus, apenas com as “partes naturais” cobertas com peles ou panos. Tinham as barbas “umas trançadas, outras corridas, outras raspadas”, sendo “corpulentos e valorosos todos”. Ao se encontrarem com D. Pedro de Almeida, ajoelharam-se, abaixaram as cabeças e bateram palmas, saudando-o à moda africana. E, em novembro, o próprio Ganga Zumba viera assinar o acordo. Mas, pouco depois, o imprevisível entrara em cena: ele era jovem, coxo, e atendia pelo apelido de Zumbi, que quer dizer “defunto”, em língua bantu.

    Zumbi, comandante de um dos mocambos de Palmares, acusou Ganga Zumba – negro de raça arda, famosa pela sua robustez, valentia e rebeldia – de ter falhado como general. De ter comandado suas tropas em estado de embriaguez, daí sua derrota. De ser corrupto. Mas a cláusula do contrato que previa a devolução ao cativeiro de todos não nascidos em Palmares foi o motivo maior da revolta. Aquilo era inaceitável.

    Então, Zumbi marchou com seus liderados em direção aos demais mocambos, em alguns deles enfrentando resistência, mas, na maioria, encontrando adesão. E Ganga Zumba teve de se retirar às pressas para Cucaú, com apenas trezentos ou quatrocentos seguidores, prometendo voltar para “libertar” os que haviam ficado. Seu calvário, porém, estava apenas começando.

    Em Cucaú, o grande chefe passou a sofrer assédio dos brancos. Sob o pretexto de temer o “perigoso bando” de negros comandado por ele, os proprietários locais, contrariando o governador, cercaram a área, impedindo que vingasse o prometido “comércio e trato” com a vizinhança. E, pior que isso, começaram a invadi-la para capturar quilombolas, alegando que se tratava de escravos fugidos.

    Nessas circunstâncias, cada vez mais desgastado e enfraquecido, Ganga Zumba acabou sendo envenenado por alguns dos seus seguidores, que se sentiram traídos por ele, no ano de 1679. E o comando de Palmares ficou com Zumbi, do qual trataremos na próxima semana.

    Nassau, o maior dos traficantes

    Afora as hesitações morais e religiosas, os flamengos também duvidavam da eficiência do trabalho escravo. “Com cachorros ruins não se pegam coelhos”, diziam eles. Mas em pouco tempo aderiram àquele comércio extremamente lucrativo – uma “peça” que custava entre 12 e 75 florins, na Guiné ou em Angola, por exemplo, era revendida no Brasil entre 200 e 300 florins – e o fizeram crescer como nunca. Pode-se dizer até que, no comando das possessões brasileiras e africanas da Companhia das Índias, Maurício de Nassau foi o maior traficante de escravos do mundo, entre 1637 e 1644.

    Valor de mercado

    Por escassez de água doce nos navios negreiros, em especial nos trajetos mais longos, os cativos frequentemente recebiam água do mar para beber. Por esse motivo, entre outros, muitos deles, se não morriam a caminho, findavam pouco depois de desembarcar. Em consequência, os negros da Guiné, que era mais distante do Brasil, tinham menor valor de mercado. Já os mais valorizados eram os angolanos, considerados os mais saudáveis, pois sofriam menos nas viagens mais curtas para cá, além de dóceis e produtivos.


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    “Negro de singular valor e constância rara” ele liderou o maior movimento de resistência popular ocorrido no País

    Zumbi estava metido num buraco, literalmente, no dia vinte de novembro de 1695. Seu derradeiro refúgio, após dois anos de fuga, desde a destruição do quilombo de Palmares, era um “sumidouro”, uma espécie de gruta escavada na pedra pelas águas de um rio subterrâneo, na serra de Dois Irmãos. De lá, ele não tinha mais para onde escapar, com a dúzia de homens que lhe restavam. E, naquela situação desesperadora, recebeu com alegria a notícia de que seu genro, o mulato Antônio Soares, homem de sua inteira confiança, estava chegando. Talvez ele trouxesse alguma boa notícia.

    Não ficaria tão satisfeito se soubesse quem acompanhava Antônio…

    MODELO AFRICANO

    Corria o ano de 1655 quando o bondoso padre Antônio Melo, vigário da vila de Porto Calvo, na comarca pernambucana das Alagoas, ganhou de presente “uma cria do sexo masculino, com escassos dias de existência”, de um casal de escravos fugitivos. Batizado de Francisco, o menino logo mostrou “engenho jamais imaginável na raça negra e que bem poucas vezes encontrei em brancos”. E “quando cumpriu dez anos, já conhecia todo o latim que há mister, e crescia em português muito a contento”, segundo o religioso, que pensava em fazer dele sacristão. Aos quinze, porém, o garoto, que sempre apresentara “uma cordura perfeitamente cristã”, fugira para Palmares. E só voltara tempos depois, já como poderoso chefe quilombola, levando presentes para o padre Antônio, que vivia na miséria.

    Na língua bantu, a palavra “kilombo” significa cemitério, ou paragem de caravanas. No Brasil, nomeava as comunidades independentes formadas por escravos fugitivos do cativeiro, índios, brancos e mulatos pobres. E, dentre os muitos que havia, Palmares era o maior, com vinte a trinta mil habitantes divididos em vários povoados chamados de “mocambos”, ou “cercas”.

    Politicamente, organizava-se como uma nação africana. Cada mocambo era governado por um chefe, escolhido em assembleia, os quais, por sua vez, formavam um conselho que julgava as questões mais sérias e escolhia o “grande chefe”. Das portas das casas para dentro, porém, mandavam as mulheres.

    UM REINO FEMININO

    Os chefes, naturalmente, tinham tantas esposas quanto quisessem ou pudessem. Zumbi, por exemplo, tivera várias. Mas, para a maioria, não era assim. Havia muita falta de mulheres, e cada homem que chegava era colocado em uma família comandada por uma delas. E cada família, por sua vez, recebia um lote de terra para cultivar. Porém, não era dona do que produzia.

    “Entre eles, tudo é de todos e nada é de ninguém, pois os frutos do que plantam e colhem, ou fabricam nas suas tendas, são obrigados a depositar nas mãos do conselho, que dá a cada um quanto requer seu sustento”, assim relatou o holandês Rodolfo Baro, que guerreou contra Palmares no tempo da invasão flamenga.

    Entretanto, mantinham a escravidão. Só quem chegava lá por seus próprios meios era considerado livre. Para conseguir alforria, contudo, bastava a um escravo trazer outro para substituí-lo. Assim, os povoados e engenhos vizinhos eram constantemente desfalcados das suas “peças”, sendo esta a maior causa do ódio dos brancos e das dezenas tentativas de destruir Palmares, ao longo de um século. Sem resultado.

    Em 1677, porém, Ganga Zumba, o grande chefe palmarino, fora derrotado num desastroso combate. E o governador Pedro de Almeida aproveitara a ocasião para firmar com ele um acordo de paz, que previa a mudança do quilombo para outro local e a devolução de todos os escravos fugidos, não nascidos por lá. Uma cláusula que, naturalmente, desagradou muitos quilombolas. Inclusive, Zumbi.

    O SANTO DERROTADO

    Chefe de um dos mocambos, Zumbi era um “negro de singular valor, grande ânimo e constância rara, cuja indústria, juízo e fortaleza aos nossos serve de embaraço e aos seus de exemplo”, na descrição de um funcionário português. E, com a energia dos 23 anos de idade, expulsara Ganga Zumba, cuidando de manter de pé o velho e marrento Palmares. Ele intensificara os preparativos militares e passara a despachar destacamentos aos povoados e engenhos próximos em busca de armas e munições, além de libertar escravos.

    Em vista disso, a guerra contra o grande quilombo recomeçara com as “entradas” dos capitães André Dias, em 1680, e João da Cunha, em 1684. Ambas derrotadas. Então, em 1685, arribara um novo governador, João Souto Maior, trazendo nada menos que uma carta do rei de Portugal para Zumbi, oferecendo-lhe perdão. Mas nem mesmo isso foi levado em conta pelo guerreiro negro, desinteressado em qualquer acordo com os brancos.

    Em 1687, o capitão Fernão Carrilho, que derrotara Ganga Zumba, dez anos atrás, atacara de novo, levando com ele, inclusive, um soldado extraordinário, veterano da guerra contra Holanda — ninguém menos do que Santo Antônio! Ou seja, uma imagem do santo, pertencente ao convento dos franciscanos, em Olinda, uniformizada e recebendo o soldo do recruta. Mas, daquela vez, enfrentando Zumbi, o santo saíra perdendo.

    Paulistas e pernambucanos contra palmarinos

    Constatando, então, que, contando apenas com as suas próprias forças, seria impossível vencer Palmares, o governador Souto Maior radicalizara: chamara o bandeirante Domingos Jorge Velho, que vivia no Piauí, prometendo-lhe muitas terras em troca dos seus serviços. Para isso enfrentando, inclusive, a resistência de muitos pernambucanos, mais temerosos dos paulistas — “gente bárbara e indômita, que vive do que rouba” — do que dos próprios quilombolas.

    A proposta agradara a Jorge Velho, que fechara o negócio e atacara Palmares, em 1692. Mas, habituado a massacrar índios, que desconheciam táticas militares, também fora batido pelos experientes guerreiros de Zumbi. Até que, em 1694, à frente de nove mil homens — os holandeses que haviam conquistado Pernambuco, em 1630, eram apenas sete mil —, e com apoio do capitão pernambucano Bernardo Vieira de Melo, o bandeirante conseguira, enfim, a vitória, promovendo um espantoso massacre.

    Zumbi, porém, conseguira escapar. E por dois anos não fora apanhado, mudando de um esconderijo para outro, até seu genro Antônio ser capturado e, sob tortura, revelar seu paradeiro. Mas, ao ser surpreendido, ele não aceitou render-se, matando um inimigo e ferindo vários outros até ser morto, com quinze tiros e inúmeras facadas.

    Para comprovar que aquela figura lendária tivera mesmo fim, seu cadáver — pequeno e magro, para surpresa de muitos — foi levado para Porto Calvo. Lá, sua cabeça foi cortada, salgada e enviada para o Recife, onde o governador mandou exibi-la “no lugar mais público desta praça”, para “satisfazer os ofendidos e queixosos e assustar os negros, que o julgavam imortal”. Entretanto, ele continua vivo, na memória popular.

    Em todas as regiões brasileiras existiram quilombos, e há muitas comunidades deles remanescentes ou em processo de reconhecimento como tal pela Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura. Um certificado que, teoricamente, lhes dá direito a terra e acesso a projetos de sustentabilidade, preservação e valorização dos seus patrimônios, de acordo com os artigos 214 a 216 da Constituição.

    Horrores do cativeiro

    Após as duríssimas viagens nos navios negreiros e a humilhação da venda em mercados públicos, os escravos ficavam entregues à perversidade dos seus donos. Por qualquer “malfeito” eles podiam ser metidos em instrumentos de tortura como “troncos”, “viramundos”, “cepos”, “libambos”, “gargalheiras”, “golhilhas”, “anjinhos” ou máscaras de flandres. O castigo mais comum, porém, era o açoite, com requintes de crueldade. João Fernandes Vieira, por exemplo, numa instrução aos seus feitores, recomendou que “depois de bem açoitado (o punido), será picado com navalha ou faca que corte bem, e dar-lhe-á com sal, sumo de limão e urina, e o meterá alguns dias na corrente. E, sendo fêmea, será açoitada com baiona (urtiga), dentro de casa, com a proibição de lhe bater com pau, pedra ou tijolo”.

    Os escravos também passavam fome sistematicamente, a ponto de os proprietários misturarem um óleo fedorento ao azeite das lamparinas, para que eles não o lambessem. E, por conta disso tudo, o padre Antônio Vieira, num sermão dirigido aos cativos, lhes disse, piedosamente, que “não há trabalho nem gênero de vida no mundo mais parecido à cruz e à paixão de Cristo que o vosso”. Já o céu, para eles, no Brasil, certamente ficava em Palmares.


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    Após vencer índios e negros rebelados, ele também se revoltou e foi à luta contra o domínio português

    Arte: Greg/DP

    Como quase todos os “principais” pernambucanos, no início do século dezoito, o capitão Bernardo Vieira de Melo odiava os portugueses. E tinha motivos para isso. Como, por exemplo, o monopólio que obrigava os produtores locais a vender seu açúcar apenas aos comerciantes lusos, pelo preço estabelecido por eles; e a lhes comprar armas, alimentos, tecidos, ferramentas etc., pelo preço que eles quisessem cobrar. Ou a retirada, aos poucos, de antigos direitos dos filhos da terra, como a exclusividade na nomeação para os cargos públicos. Ou, ainda, a permissão para que o Recife, onde viviam os europeus, tivesse sua própria câmara municipal, em vez de permanecer submetido à Câmara de Olinda, controlada pelos nativos. Os quais perderam, com isso, o pouco poder político que ainda lhes restava.

    Então, em outubro de 1710, a revolta explodira. O governador português Sebastião de Castro sofrera um atentado à bala e depois fugira para a Bahia. O Recife fora ocupado pelos olindenses. E, no dia 10 de novembro, Bernardo e outros líderes, como Leonardo Bezerra e Sebastião de Barros Rego, propuseram o rompimento com Portugal e o estabelecimento em Pernambuco uma república independente e plutocrática, governada pelos ricos, ao modo de Veneza, na época.

    Mas, para a maioria dos outros senhores, essa proposta parecera radical demais, e Bernardo acabaria pagando caro pela sua ousadia …

    NOBREZA INDIGNADA

    Descendente de duas famílias aristocráticas de Portugal, Bernardo era senhor de vários engenhos e também exercera diversos cargos públicos, nos seus 52 anos de vida. Fora governador do Rio Grande do Norte; capitão-mor de Igarassu; e, em 1710, era um dos principais “senadores” (vereadores) da Câmara de Olinda. Além disso, possuía um glorioso currículo militar. Já reprimira uma grande revolta indígena chefiada pelo cacique Canindé, no Rio Grande do Norte; e, ao lado do paulista Domingos Jorge Velho, derrotara o lendário Zumbi e destruíra o quilombo dos Palmares. Para muitos, um feito tão formidável quanto a expulsão dos holandeses, em 1654. Mas os seus inimigos, daquela vez, eram os portugueses.

    Ora, na opinião de Bernardo, esta capitania se desenvolvera, no primeiro século da colonização, por gozar de bastante autonomia comercial e administrativa. O rei mandava pouco. E por ter ficado muito rica ela atraíra a cobiça dos flamengos, que a invadiram, em 1630.

    Os pernambucanos, porém, quase sem apoio externo, à custa do seu sangue, derrotaram aquele poderoso assaltante. E assim garantiram para Portugal suas possessões na América, ao contrário da África e da Ásia, onde as perdas para a Holanda foram imensas.

    Nada mais justo, então, que, após a saída dos holandeses, eles recebessem de volta algumas vantagens como a isenção de certos impostos e autonomia nas nomeações para os cargos públicos. Mas não receberam. E, aos poucos, foram sendo excluídos não só da escolha dos governadores como até dos sargentos e meirinhos.

    Revoltados, os “principais” da terra passaram, então, a se chamar de “nobres”. Afirmando descender da aristocracia portuguesa, procuravam se valorizar e se distinguir dos plebeus portugueses, principalmente dos comerciantes, apelidados por eles de “mascates”. Que, por vez, os chamavam de “mazombos” e “pés-rapados”.

    FAZENDO REPÚBLICA

    Então, em 1707, Portugal e Espanha entraram em guerra e a situação financeira dos nobres, que já não era boa, piorara. Muitos navios se perderam e a frota que vinha do Reino passara de anual a bienal. Já os custos de produção do açúcar dispararam. O preço de um escravo, por exemplo, subira de 30 a 40 mil réis para 150, devido ao garimpo de ouro em Minas Gerais, que requeria muita mão de obra. E, em 1710, com a chegada do decreto que dava autonomia ao Recife, as “alterações” começaram. A maioria dos pernambucanos se amotinara contra o domínio português – não só os ricos, mas também os pobres, que atribuíam o alto custo de vida à ganância dos mascates. Em outubro, o governador Sebastião de Castro levara cinco tiros numa emboscada, e, em novembro, o Recife fora cercado por tropas vindas do interior. O governador, então, fugira; e os vitoriosos se viram diante de uma escolha muito difícil.

    Eles deveriam “fazer república”, como queria Bernardo?… Ou seria melhor por a culpa de tudo no fujão Sebastião de Castro e tentar um acordo com o rei?… Será que Sua Majestade não lhes devolveria os seus antigos privilégios, em troca de paz?…

    Enganados e reprimidos com extrema violência

    A discussão chegou ao ponto de os nobres quase pegarem em armas uns contra os outros. No final, a proposta republicana recebeu apenas oito votos e o governo foi entregue ao bispo D. Manoel Álvares, enquanto as reivindicações pernambucanas eram encaminhadas a Lisboa.

    A resposta, contudo, demorou, e a briga recomeçou. O estopim foi um desentendimento dos homens da tropa de Bernardo, estacionados do Recife, com os portugueses, em junho de 1711, por causa de uma mulata. Então, os mascates assaltaram a casa do capitão, que foi atirado na cadeia; e, em seguida, tomaram posse da vila, pedindo a volta do governador Sebastião de Castro. Em resposta, os nobres cercaram o Recife mais uma vez. E houve muita luta, também, no interior, até a chegada, em outubro, de um novo governador, Felix Machado, trazendo o perdão geral para todos os implicados naquelas “alterações”.

    Por algum tempo, Machado pareceu agir com bom senso e justiça, buscando acalmar os ânimos. Mas era apenas astúcia dele. Depois de tomar pé da situação e fazer acordos secretos com os “principais” a favor de Portugal, ele mostrou, de fato, a que viera. Em fevereiro de 1712 decretou a prisão e o sequestro dos bens de dezenas de nobres, a pretexto de que havia uma nova conspiração em andamento. E todos eles sofreram grandes humilhações, sendo exibidos ao povo em grilhões, como escravos fugidos – para homens tão orgulhosos, um castigo pior que a morte.

    Em outubro de 1713, onze deles foram embarcados para Lisboa. Inclusive, Bernardo, que morreu no ano seguinte, na prisão, sufocado pelos vapores de um braseiro colocado em sua cela para amenizar o frio europeu. Seu filho André também morreu por lá, enquanto a repressão, por aqui, seguia ferocíssima, com a detenção de centenas de pernambucanos. Foi tão violenta que por um século inteiro não haveria mais nenhuma “alteração” nesta capitania.

    As homenagens ao guerreiro republicano só vieram em tempos recentes. Seu nome foi dado à principal avenida de Jaboatão dos Guararapes e a outra, em Natal. A Câmara Municipal de Olinda passou a se chamar Casa de Bernardo Vieira de Melo. E o movimento de 1710 ganhou o apelido de “Guerra dos Mascates”, devido a um folhetim do escritor José de Alencar que fez muito sucesso no século dezenove.

    Coincidência?

    O primeiro ato de propaganda política do movimento de 1710, nascido em Olinda, foi a derrubada do pelourinho do Recife. O recém-erguido monumento de pedra, símbolo da autonomia das vilas portuguesas, foi posto abaixo por um grupo de homens fantasiados de índios, para assim ressaltar que eram americanos e não europeus. Já a luta pela independência dos Estados Unidos começou em Boston, em 1776, com o “tea party”, o ataque a um navio inglês, também por um grupo de falsos indígenas. Por coincidência, provavelmente.

    Terra violenta

    O atentado ao governador Sebastião de Castro não foi algo extraordinário. Em Pernambuco, naquele tempo, mandar espancar ou matar seus desafetos, sem ser castigado por isso, era o modo natural de os poderosos resolverem suas querelas. Inclusive, dentro das próprias famílias. Fernão Barbalho, senhor de engenho na Várzea, por exemplo, por uma questão de honra matou a mulher, as filhas e um sobrinho, com ajuda dos filhos. Antônio Curado Vidal andou assassinar onze pessoas, incluindo a madrasta, dois parentes dela e o próprio genro. E Bernardo Vieira de Melo mandou estrangular sua nora, logo após a jovem ter dado a luz, devido a uma suposta infidelidade dela ao seu filho André, com o rico proprietário João Paes Barreto. Que foi morto numa emboscada.


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    Maior provocador das “alterações” de 1710, seria adiante chamado de “o primeiro pernambucano livre”

    Arte: Jarbas/DP

    Leonardo Cavalcanti de Albuquerque Bezerra era o pernambucano que mais odiava os portugueses. “Ser filho do Reino basta para ser velhaco”, ele costumava dizer em alto e bom som, em qualquer lugar, sem se importar com quem estivesse ouvindo. Já de idade madura, entre suas façanhas ao longo da vida, uma se destacava: fora preso por três governadores lusos. Câmara Coutinho o detivera, em 1690, por ter se negado a emprestar escravos para as obras do Forte do Brum.

    Caetano de Melo, em 1695, por ter sacado a espada e desafiado o comandante da frota anual, que fazia a “carreira” entre Recife e Lisboa. Sebastião de Castro, em 1708, após desavenças em torno da cobrança de dízimos. E, de novo, em 1710, por conspirar contra o governo.

    Sebastião de Castro, porém, arrependera-se de tê-lo prendido outra vez. Pouco depois fora emboscado, quase perdendo a vida. E, devido à rebelião ocorrida a seguir, puxada pelas famílias Bezerra e Cavalcanti, tivera de fugir para a Bahia. Então, Leonardo e outros “principais” da terra tentaram implantar aqui uma república à moda veneziana, governada pelos ricos. A maioria, contudo, preferira entregar o governo ao bispo D. Manoel Álvares e buscar um acordo com o rei.

    A resposta de Lisboa demorara um ano, durante o qual houvera muita luta entre pernambucanos e portugueses. Então, o novo capitão-mor, Felix Machado, chegara, em outubro de 1711, trazendo perdão geral e propondo paz e conciliação. Mas era tudo falsidade dele. E já em fevereiro de 1712 Leonardo era preso pelo quarto governador, sucessivamente…

    RANCOR DE NOBRE

    Esse grande agitador era membro de duas antigas famílias da capitania, descendentes da aristocracia lusa: os Bezerra e os Cavalcanti de Albuquerque. E tinha quatro irmãos que comandavam milícias civis e eram vereadores nas câmaras de Olinda e Goiana. Contudo, não possuía grande fortuna, nem casara com mulher rica. Ele e seus familiares plantavam cana, criavam gado e negociavam com arrecadação de impostos, para ganhar a vida. E a raiz da sua ira contra os portugueses estava justamente ali: para quem se ufanava tanto da sua nobreza, era vergonhoso ter de barganhar e, pior, ser miseravelmente explorado por gente “de categoria inferior”.

    O problema em Pernambuco, na opinião de Leonardo e de outros nobres, era que, desde a expulsão dos holandeses, passara a chegar aqui uma legião de portugueses miseráveis. Esses sujeitos, quando não eram bêbados contumazes, recebiam fazendas (objetos diversos) dos seus patrícios comerciantes, para mascatear de porta em porta. E logo enricavam, abriam lojas no Recife e traziam seus parentes para trabalhar como caixeiros. Alguns até viravam mercadores de sobrado (capitalistas).

    A vantagem deles residia em serem os únicos autorizados a exportar e a importar mercadorias – principalmente, alimentos, porque aqui só se plantava cana – e a financiar os agricultores. Ao final de cada safra, os senhores de engenho estavam sempre lhes devendo somas consideráveis, cobradas em dobro, no ano seguinte. Ou, então, entregavam seu açúcar a 400 réis por arroba, remetida para Lisboa por 1.400. E, não satisfeitos, esses estrangeiros passaram a subornar os governadores para ocupar os cargos públicos mais lucrativos – um privilégio exclusivo dos filhos da terra, segundo a lei vigente.

    ORGULHO DE MASCATE

    Os mascates, por sua vez, se diziam odiados pelo povo da terra porque enriqueciam trabalhando muito e economizando ainda mais, enquanto os brasileiros eram preguiçosos e esbanjadores. Além disso, se eles possuíam “defeito mecânico”, porque usavam as mãos no seu trabalho, os nobres “pés-rapados” também possuíam “defeito de sangue”, por terem parentesco com os judeus vindos para cá, no passado E assim também eram desqualificados para os “ofícios de honra”, como os cargos de juiz e tabelião. O senhor Felipe Paes Barreto, de um dos clãs mais ricos e tradicionais de Pernambuco, não fora impedido de receber a Ordem de Cristo porque sua avó materna era judia?

    Então, em 1710, caíra a gota que faltava para fazer o ódio transbordar: chegara o esperado decreto elevando o Recife, onde viviam os portugueses, à categoria de vila. A partir daí, com a sua própria câmara de vereadores e não mais submetidos à Câmara de Olinda, dominada pelos nobres, os mascates teriam maior poder político e controle sobre o dinheiro dos impostos.

    Revoltadíssimos, Leonardo, seu irmão Manoel e seu filho Cosme foram os que mais protestaram. “Ou aquele ato era revogado”, ameaçaram eles, “ou havia de acabar-se o mundo”. E por isso foram presos; sofrendo, inclusive, a humilhação de serem postos a ferros, como escravos.

    Aí o circo pegara fogo de vez.

    Desterrado para a Ásia e ainda rebelde

    Foram vários os tiros disparados contra Sebastião de Castro, que escapara por um triz, por três cabras com os rostos pintados de preto. E a devassa do crime concluíra que, sem dúvida, Leonardo “mandara da prisão em que estava atirar à espingarda ao dito governador”. Então, dois parentes dele, os capitães das freguesias de São Lourenço e de Santo Antão, ameaçados de também serem presos, pegaram em armas. E quando derrotaram as tropas enviadas do Recife para detê-los, amotinara-se quase todo Pernambuco.

    Na sequência, veio a fuga de Sebastião de Castro; a proposta frustrada de implantação de uma república; e o governo interino do bispo D. Manoel, contra o qual os portugueses também se revoltaram, em junho de 1711. E a luta prosseguiu até outubro, com o cerco do Recife pelos nobres e muitos enfrentamentos no interior, até a chegada do novo governador, Felix Machado.

    Trazendo um perdão geral e agindo equilibradamente, de início, Felix ganhou a confiança dos pernambucanos. Para, já em fevereiro de 1712, começar a prender centenas deles, pondo-os a ferros, como se fossem escravos fugidos, além de sequestrar seus bens e despachar os líderes do levante para Lisboa. Inclusive, Leonardo Bezerra – detido pela quinta vez –, junto com seu filho Cosme.

    Vários, como Bernardo Vieira de Melo e seu filho André, morreram na prisão, até que os sobreviventes foram finalmente julgados e anistiados, em 1718. Menos Leonardo e Leão Falcão, desterrados perpetuamente para Goa, na Índia, como os principais cabeças das alterações, ainda vivos.

    De lá, contudo, os dois tentaram voltar clandestinamente para o Brasil, tendo Falcão morrido na viagem. Já Leonardo conseguiu chegar até Salvador, onde o prenderam pela sexta vez. Mas, por intercessão de um parente poderoso, ele foi solto, alegando estar cego e sob a condição de jamais voltar para sua terra.

    Seu ato final de rebeldia foi uma carta enviada aos pernambucanos, recomendando que não cortassem um só quiri (madeira muito resistente) das matas. Para, mais adiante, quebrá-los todos nas costas dos portugueses.

    Olinda X Recife

    Noves fora a política, o Recife merecia o título de vila, em 1710. Possuía entre doze e quinze mil habitantes, um grande casario assobradado, muitas igrejas e conventos. Ao passo que Olinda – que já fora “Cabeça do Brasil” e ainda era, legalmente, a sede do governo e do bispado, em Pernambuco – tinha pouco mais de duas mil almas, todas pobríssimas. Os nobres já não podiam dar-se ao luxo de manter uma casa lá e outra no campo. E a igreja da Sé, antigamente suntuosa, toda revestida de mármore, estava coberta de mato.

    Nobres X mascates

    Nos primeiros cem anos de Pernambuco, a produção de açúcar era financiada pelos os judeus portugueses da Holanda, os negociantes lusos tinham lojas na parte baixa de Olinda, os nobres moravam na alta, e a harmonia reinava entre todos. Tal e qual em Salvador. Então, vieram os holandeses, que não só monopolizaram o comércio como afastaram fisicamente as duas categorias. Os comerciantes concentraram-se no Recife, após o incêndio de Olinda, enquanto os produtores foram para seus engenhos, no interior. E, após a Restauração, em 1654, os mascates assumiram o lugar dos flamengos, açambarcando os negócios e entrando num feroz conflito com os nobres.


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    Ele plantou idéias avançadas numa terra inculta, formou dezenas de líderes e inspirou revoluções

    Prestes a completar cinquenta anos de idade, em fevereiro de 1802, o monsenhor Arruda Câmara proibiu discípulos e amigos de celebrarem o seu natalício. O momento não era para festejos, com os irmãos Francisco de Paula e José Francisco Cavalcanti de Albuquerque presos no Forte de Cinco Pontas, acusados de conspirar contra Portugal. Mesmo sendo ricos e bem relacionados, os “Suassunas”, como eram apelidados, poderiam acabar na forca. E se a devassa conduzida pelo juiz Antônio Manoel Galvão avançasse de fato, o nome do próprio Arruda também apareceria, como mentor dos dois.

    Na verdade, o monsenhor, um grande idealista, não temia pela vida. O que ele lamentava era os portugueses terem descoberto a trama que vinha sendo costurada em segredo pelos patriotas de Pernambuco e da Paraíba, havia anos, sob a sua orientação. E, consequentemente, a perda de muito trabalho em prol não só da independência do Brasil, como da libertação dos escravos e da melhoria de vida dos mais pobres. Mesmo se os Suassuna – e ele – escapassem do castigo, a revolução com a qual sonhava já fora atrasada por um bom tempo…

    IDEIAS FRANCESAS

    Nascido em Pombal, na Paraíba, Manoel entrara como noviço no convento dos carmelitas calçados de Goiana, em 1783. Depois fora estudar em Coimbra, de onde o expulsaram por ser liberal demais. Então, seguira para Montpellier, na França, onde se enfronhara nos mistérios da medicina, das ciências naturais e da política. E, tendo acompanhado de perto a Grande Revolução de 1789, voltara para o Brasil, três anos depois, com a cabeça cheia de sonhos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

    Alertado, porém, pela experiência vivida em Portugal, ele tivera sabedoria e paciência para não se expor novamente, para não revelar seus sonhos a quem não devia, nessa terra de gente analfabeta, fanaticamente religiosa e regida pela mão de ferro da coroa portuguesa. Membro destacado da maçonaria, Manoel fundara o Areópago (reunião de homens ilustres, em grego) de Itambé. E, secretamente, nos intervalos das suas viagens pelos sertões nordestinos, onde estudava a natureza, e entre um livro e outro que escrevia, fora armando a sua teia com ajuda do seu principal acólito, o padre João Ribeiro Montenegro.

    “Não quero o que já existe”, ele costumava dizer, “e toda demora é prejudicial”.

    O SEMINÁRIO

    O plantio de ideias progressistas iniciado pelo monsenhor também avançara muito com a chegada do bispo fluminense José Joaquim Azeredo Coutinho, em 1798. Não que os dois tivessem a mesma orientação política. Pelo contrário. Coutinho era um conservador, um homem do antigo regime. Mas, sendo membro emérito da Academia Real de Ciências, conhecido e reverenciado por todas as pessoas cultas do Brasil e de Portugal, autor de diversos tratados sobre pesca, indústria e agricultura traduzidos para vários idiomas, era um entusiasta da educação. E movera mundos e fundos para criar o Seminário de Nossa Senhora das Graças, em Olinda.

    Seu objetivo com aquela instituição era, além de formar sacerdotes, preparar funcionários para trabalhar no comércio e no governo, homens bem esclarecidos e educados, dotados de mentalidade prática. E para ministrar as aulas mandara buscar excelentes professores em Lisboa, como Frei Laboreiro e Padre Miguelinho – estes, sim, apaixonados pelas “ideias francesas”, que passaram a difundir entre melhor juventude local.
    Outro evento recente que impulsionara o trabalho de Arruda Câmara fora a chegada da cultura do algodão.

    NOVOS TEMPOS

    Ora, durante a infância e a juventude do futuro monsenhor, nada em sua terra fugia da rotina. Ano após ano, era tudo igual. E o único produto de exportação continuava sendo o açúcar, afora um pouco de pau-brasil, peles e ipepaconha, que quase não pesavam na balança comercial. Então, uma nova aurora despontara. A partir de 1776, as fábricas inglesas, que abasteciam o mundo de tecidos, viram-se de repente desprovidas da sua matéria prima, o algodão, devido à guerra de independência do seu fornecedor, os Estados Unidos, e foram buscá-la em outras paragens. Inclusive, o Brasil. E logo se vira por aqui que esse plantio poderia ser muito lucrativo, até porque, ao contrário do açúcar, não era preciso um alto investimento para começar a produzir.

    Assim, um grande número de pequenos agricultores pôde entrar no mercado internacional, sem sair de casa. Os intermediários iam até as suas portas comprar o produto a um bom preço, transportando-o depois para o litoral, onde era descaroçado, prensado e embarcado. E essa nova cultura, surgida nos tempos modernos, das máquinas de pulmão de ferro que respiravam a força vapor, despertara a região da sua letargia prolongada.

    Um dia, todos os americanos serão irmãos

    Já virada dos oitocentos, o algodão empatava com o açúcar e a aguardente em volume de exportações, dando-se por certo que logo tomaria o primeiro posto. E o Recife, que já fora domínio dos “mascates” – os comerciantes portugueses, contra os quais os “nobres” pernambucanos, baseados em Olinda, haviam guerreado, em 1710 – também se abrasileirara. Centenas de artesãos e pequenos comerciantes, brancos, negros e pardos, foram se estabelecendo por lá, principalmente no bairro de Santo Antônio, deixando os lusos restritos ao velho bairro portuário. O norte da capitania também fervilhava, e na populosa vila de Goiana se implantara até uma manufatura de panos rústicos, coisa nunca vista por aqui.

    Pois era com essa massa de trabalhadores livres que Arruda Câmara contava para fazer a revolução. A aliança com a aristocracia nativa – “cabundá”, acanalhada, na sua opinião – seria temporária. Só marchariam juntos até a independência de Portugal, “pois ela sempre iria por fúteis obstáculos a outros avanços”, como, por exemplo, a libertação dos escravos. E “a gente de cor também deveria ter ingresso na prosperidade do Brasil”.

    Aliás, não só do Brasil, como da América inteira. Para o monsenhor, logo viria o tempo em que todos os americanos seriam irmãos. E seus projetos iam marchando bem até os Suassuna serem apanhados.

    Por sorte – ou melhor, à custa de muito dinheiro e conchavos – os dois irmãos se safaram do castigo, após um ano de prisão no Forte de Cinco Pontas. E Arruda Câmara jamais foi acusado de nada. Ele continuou a fazer suas pesquisas e a trabalhar pela liberdade e pela democracia, até morrer, em 1811, após ter arrancado do príncipe D. João a permissão para criar o Jardim Botânico de Olinda. Mas sem chegar a ver o resultado do seu plantio, que brotou com toda força na Revolução de 1871, e fez desta província a vanguarda política do País durante toda a primeira metade do século XIX.

    Em sua homenagem foi criado o Parque Arruda Câmara, em João Pessoa, na Paraíba, popularmente conhecido como “Bica”; e a Academia Paraibana de Letras o adotou como patrono de uma das cadeiras. Em Pernambuco, deveria ser mais reconhecido.

    O Seminário

    O Seminário de Olinda, criado pelo bispo Azeredo Coutinho, em 1800, como um viveiro de sacerdotes e de funcionários para o comércio e o governo, oferecia instrução secundária ao nível dos liceus franceses, como jamais houvera no País. Ensinava latim, grego, francês, retórica, poética, história universal, história sagrada, teologia dogmática e moral, lógica, metafísica, ética e cantochão, além de ciências como geografia, desenho, matemática e história natural. E formou, intelectual e politicamente, dezenas de importantes personagens da História do Brasil até ser fechado, na esteira da repressão à Revolução de 1817. Reaberto após a Independência, não recuperou a importância anterior.

    Açúcar X algodão

    A produção de açúcar não foi abandonada, apesar de muitos agricultores terem corrido para o algodão, bem mais lucrativo. Pelo contrário, ela seguiu crescendo, embora lentamente, na mata sul, chuvosa e com solo de massapé úmido, peguento, inimigo dos algodoeiros. O plantio de algodão, por sua vez, começou na mata seca, ao norte. Depois avançou sobre o “mimoso”, o agreste, com clima e terrenos propícios. Por fim, entrou pelo sertão, uma região muito pouco povoada onde até então só se criava gado.


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    Rico, de família aristocrática, ele arriscou tudo pela independência do seu país na chamada “Conspiração dos Suassuna”

    Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, mais conhecido por Capitão Suassuna, nome de um dos engenhos da sua família, corria um sério risco de vida, em fevereiro de 1802. Ainda jovem, aos 32 anos, dono de muitas propriedades, oficial do Corpo de Artilharia do Recife, comandante da freguesia do Cabo, ele estava trancafiado há nove meses no Forte das Cinco Pontas, juntamente com seu irmão Luís Francisco, ambos acusados de conspirar contra Portugal, pela independência do Brasil. E, ao final de uma grande devassa feita pelo juiz Antônio Manoel Galvão, o futuro deles passara a depender das vontades de Deus e do regente do Reino, o príncipe D. João. Tanto poderiam ser libertados quanto pendurados numa forca, tal como o mineiro Tiradentes, 26 anos atrás.

    A decisão viria na próxima nau de Lisboa…

    ORGULHO DE NOBRE

    Francisco de Paula era membro de uma numerosa e aristocrática família surgida nos tempos da fundação de Pernambuco. E, ao lado do irmão, há alguns anos participava do “Areópago de Itambé”, uma loja maçônica fundada pelo grande cientista e filósofo paraibano, monsenhor Arruda Câmara, que estudara na Europa e vira de perto a “grande revolução” francesa. Desta associação secreta faziam parte senhores de engenho, padres, militares e advogados, os melhores dentre os poucos homens ilustrados que havia, então, em Pernambuco.

    “Areópago”, aliás, significa “reunião de sábios”, em grego.

    Nos encontros desse grupo, o Suassuna participava com entusiasmo das discussões sobre os aspectos práticos – militares e econômicos – da luta pela independência. Mas, quando o assunto era as obras dos filósofos franceses, o evangelho dos revolucionários daquele tempo, seu interesse era menor. Para ele, tudo aquilo, no fundo, seria apenas fantasias de letrados, que costumavam vagar e ser perder no território dos sonhos.

    Liberdade? Igualdade? Fraternidade? Essas palavras não constavam das cartilhas dos senhores de engenho. Alforriar os escravos, como queria Arruda Câmara? Quem, então, lhes plantaria e colheria a cana, fabricaria o açúcar, cuidaria da casa e ainda lhes serviria de objetos sexuais? O motor da rebeldia do capitão era outro. O que o fazia conspirar, pondo a vida em risco, era a sua insatisfação de “nobre”, de descendente dos aristocratas portugueses desbravadores desta terra, cujos direitos e regalias estavam sendo frustrados pela ordem colonial portuguesa.

    Ora, além de explorados pelos “mascates” lusos que, monopolizando o comércio, compravam o açúcar aqui produzido pelo preço que queriam e vendiam suas mercadorias por quanto desejavam, os “principais” da terra tinham pouca influência no governo e eram constantemente humilhados. O pai dele, por exemplo, o venerável senhor Francisco Xavier, solicitara ao rei o título de fidalgo e cavaleiro, aos 71 anos de idade, mas a honra lhe fora negada.

    Portanto, se não havia outro remédio, se a corte só fazia ouvidos de mercador aos protestos dos pernambucanos ilustres, não lhes restava alternativa senão se rebelarem – como, aliás, já haviam tentado, em 1710, sem sucesso.
    Só faltava uma boa oportunidade para isso.

    AJUDA FRANCESA

    Então, a França, sob o comando de Napoleão, entrara em guerra com a Inglaterra. E, em abril de 1801, os Suassuna receberam duas cartas de outro irmão, José Francisco, residente em Lisboa, alertando que a Espanha, aliada dos franceses, “iria sobre Portugal”, um aliado dos ingleses. A ocasião esperada, portanto, parecia estar surgindo. Ora, os norte-americanos não haviam se libertado dos britânicos com ajuda gaulesa, em 1776? Pois talvez fosse chegada a hora de os brasileiros se livrarem dos portugueses, com esse mesmo apoio.

    O entusiasmo com essa nova, contudo, fizera Francisco de Paula cometer um erro. Ele mostrara as cartas ao comerciante e capitão de milícias José da Fonseca Sampaio, tentando conquistá-lo para a causa. Mas Sampaio, em vez disso, o delatara ao juiz Antônio Galvão, que agira imediatamente. Afinal, Pernambuco era estratégico. Além de rico e bem povoado, era vastíssimo, estendendo-se da vila de Goiana, ao norte, até o rio São Francisco, ao sul, incluindo Alagoas e a metade da Bahia atual. E ainda controlava, militar e administrativamente, a Paraíba, o Ceará, e o Rio Grande do Norte. Perdê-lo seria um prejuízo imenso para Portugal e um péssimo exemplo para as outras capitanias lusas.

    Na mesma noite, Francisco de Paula e Luís Francisco foram presos. E no dia seguinte abriu-se uma grande devassa.

    Agraciado e condecorado, porém, patriota

    Os irmãos Suassuna, contudo, souberam se esquivar dos laços armados pelo inquisidor. Negaram tudo, juraram amar seu soberano e afirmaram estar sendo incriminados injustamente. Acareado com José Sampaio, Francisco de Paula acusara o delator de ser maluco, ou de estar sendo pago para fazer aquilo, por algum inimigo seu. Ou, talvez, tudo se devesse aos ciúmes que Sampaio tinha de certa moça, com ele…

    A riqueza e as conexões políticas dos Cavalcanti de Albuquerque também trabalharam a seu favor. Foram ouvidos 84 depoentes e nada se apurara. Para todos os arrolados, os Suassuna eram homens bons e tementes a Deus e ao rei. E, para completar o desapontamento do juiz Galvão, o escrivão José Francisco Monteiro aparecera certo dia em sua casa, quase aos prantos, para lhe comunicar que uma carta encontrada na casa de Luís Francisco, a única evidência material contra os réus, até então sob a custódia dele, desaparecera misteriosamente…

    Na corte, vozes também se ouviram a favor dos irmãos. E, ao final, o rei não só os libertou e levantou o sequestro dos seus bens como ordenou “que fosse posto perpétuo silêncio sobre todo esse negócio”. A guerra entre Portugal e Espanha, por sua vez, durou apenas 18 dias, terminando com um acordo firmado em Badajoz.

    Solto, Luiz Francisco conseguiu o posto de coronel do Regimento de Infantaria de Olinda e Francisco de Paula retomou o comando da freguesia do Cabo. Em 1804, este último também se tornou capitão de ordenanças de Jaboatão e cavaleiro da Ordem de Cristo, pela contribuição de cinco contos de réis para despesas extraordinárias da coroa. No ano seguinte, foi nomeado capitão de Olinda, e, três anos depois, elevado a cavaleiro da Casa Real, como seu pai tentara e não conseguira.

    Porém, mesmo portando tantos títulos concedidos pelo rei, Francisco de Paula se rebelou novamente, na Revolução de 1817, assim como seu irmão Luís Francisco. Com o posto de general, ele comandou as tropas pernambucanas nas batalhas do Engenho Utinga, da qual saiu vitorioso, e do Engenho Trapiche, na qual foi derrotado. Em consequência, penou mais quatro anos nas masmorras de Salvador, até ser libertado outra vez, pela anistia de 1821. Doente e abatido pelas condições da prisão, porém, morreu oito dias depois de voltar para Pernambuco.

    Os Cavalcanti de Albuquerque

    Esta família teve início com Jerônimo d’Albuquerque, irmão de D. Brites, esposa de Duarte Coelho, o primeiro donatário de Pernambuco. Derrotado e aprisionado num combate travado contra os índios tabajaras, no qual perdeu um olho, vazado por uma flecha, Jerônimo foi salvo por Tabira, a filha do cacique, que rogou ao pai pela sua vida, e com ela teve oito filhos, entre os quais uma Catarina. Que, por sua vez, casou-se com Felippe Cavalcanti, um florentino que veio para cá fugindo dos poderosos Médici, senhores da sua cidade. E os descendentes desse casal tiveram grande influência na vida política de Pernambuco, nos séculos seguintes.

    Ideias francesas

    Os pensadores políticos discutidos no Areópago de Itambé eram quase todos franceses e proibidíssimos no reino português. Além dos famosos Rousseau, Voltaire e Montesquieu, havia Corneille e Moliére, com suas sátiras à aristocracia; Diderot e D’Alembert, com a “Enciclopédia”; e Erasmo, com o “Elogio à Loucura”; além de Volney, Raynal, Genovese, Locke, Benjamin Costant, Blackstone, Grócio, Puffendorf, Marmontel, Mably, Fontenelle, Helvetius e o abade Pluquet. As principais obras científicas eram as de Bacon, Descartes, Leibniz, Lineu, Buffon e Lavoisier, e na economia reinava o inglês Adam Smith.


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    Ele precisou derrubar o governo e os preconceitos da época para poder casar com a mulher que amava

    Arte: Greg/DP

    O capixaba Domingos Martins e a jovem pernambucana Maria Teodora da Costa eram apaixonadíssimos, mas havia uma grande barreira entre eles. Mesmo sendo branco, educado, de “boa família” e bem sucedido financeiramente, o rapaz nascera no Brasil. Já o pai da moça, o comerciante, capitalista e traficante de escravos Bento da Costa, um dos três homens mais ricos de Pernambuco, era português. E preferia entregá-la a um humilde caixeiro de loja, mas europeu de nascimento, do que a um filho da terra, por mais meritório que fosse. Para os lusos, como ele, os brasileiros eram gente de segunda categoria.

    Durante quatro longos anos o casal se vira apenas à distância, durante as cerimônias religiosas, comunicando-se por meio de sinais ou de bilhetinhos levados por escravas. Então, no dia seis de março de 1817, o mundo virara de cabeça para baixo. Rebentara uma grande revolução no Recife; o capitão-mor português, Caetano Pinto, fora deposto e trancafiado no Forte do Brum; os pernambucanos proclamaram uma república e Domingos Martins fora eleito um dos seus cinco governadores provisórios.

    Dois dias depois ele já estava batendo à porta de Bento de Costa, para pedir a mão da sua filha…

    PLANTANDO IDEIAS

    Domingos era um homem bonito, alegre, elegante, e até mesmo um razoável poeta. Nascido num vilarejo chamado Caxangá (hoje, Cachoeiro do Itapemirim), no Espírito Santo, filho de pai militar, ele crescera na Bahia, onde se tornara comerciante, e também vivera alguns anos em Lisboa e em Londres. Já o Recife, para onde viera, em 1813, visando abrir uma filial de sua empresa, era uma cidade grande e movimentada. Lá viviam de trinta a quarenta mil almas, divididas em três bairros: o antigo Recife, do porto e dos sobrados onde moravam os comerciantes portugueses; Santo Antônio, onde ficavam os prédios públicos e os brasileiros pobres e remediados; além da nova Boa Vista, de ruas largas e belas residências. E o capixaba, que gostava de rodar pelo mundo afora, findara se instalando lá, definitivamente, por dois motivos: porque conhecera Maria Teodora e porque descobrira Pernambuco.

    Ora, além de rica, essa capitania possuía a elite intelectualmente mais preparada do Brasil, formada pelo Seminário de Olinda; e, além disso, orgulhosa, que não abaixava a cabeça para os estrangeiros desde os tempos da invasão holandesa. Afora uma massa de pobres que, devido aos altos impostos, o recrutamento forçado e o alto custo dos alimentos, odiavam os portugueses. Era, enfim, o campo perfeito para o cultivo das suas ideias democráticas e libertárias.

    O capixaba não perdera tempo, tornando-se rapidamente benquisto e conhecido. Ajudava quem pedia. Promovia muitas festas no sobrado que alugara no Recife e no Engenho Irapama, arrendado no Cabo. E fundara a loja maçônica “Pernambuco do Ocidente”, onde, em segredo, com seus irmãos nessa ordem, planejava a revolução. Que, em 1817, já tinha até data para rebentar.

    O INESPERADO

    No início daquele ano, Domingos viajara para Salvador e para o Rio de Janeiro, em companhia do seu xará, o capitão Domingos Teotônio, e lá acertara tudo com seus confrades maçons. O levante aconteceria simultaneamente naquelas duas cidades e no Recife, as três maiores do País, na Semana Santa, em abril. Entretanto, o comerciante português “Carvalhinho”, um sujeito tão canalha que já levara várias surras, descobrira a trama, em Pernambuco, e a denunciara ao governador Caetano Pinto Montenegro. Que, no dia seis de março, ordenara a prisão dos líderes civis e militares do movimento.

    Então, o inesperado entrara em cena.

    Os civis, inclusive Domingos, foram facilmente detidos. Mas, quando o brigadeiro português Manoel Barbosa, comandante no Regimento de Artilharia, dera ordem de prisão ao capitão José de Barros Lima, apelidado de “Leão Coroado” o caldo entornara. Em vez de se render, o Leão sacara a espada e o matara. E a rebelião começara no quartel daquela tropa, logo recebendo apoio do povo pobre do Recife e rapidamente se estendendo por todo Pernambuco, assim como pela Paraíba e pelo Rio Grande do Norte, nos dias seguintes.

    Diante do novo quadro, Bento da Costa avaliou que não seria um bom negócio dizer não ao pretendente da sua filha. E já no dia 14 de março Domingos e Maria Teodora se casavam na capelinha de Nossa Senhora da Conceição, no sítio do pai dela, em Ponte d’Uchôa (hoje, Parque da Jaqueira). Os padres apressaram os trâmites e o governo bancou grandes comemorações públicas no Recife, em Olinda e nas povoações mais próximas, porque muito lhe interessava que o povo também participasse daquele evento.

    O casamento mais importante já ocorrido aqui

    Aquela união foi triplamente revolucionária. Em primeiro lugar, simbolizou a derrubada do preconceito contra os brasileiros, uma grande vitória nacional. Em segundo, ajudou a melhorar a relação entre os pernambucanos e os portugueses aqui residentes, que brigavam há mais de um século, e, naquele momento, estavam à beira da guerra civil. Por fim, cantada em versos pelos poetas, deu força a uma ideia recente, as uniões com base no amor, pois o costume, até então, era os pais acertarem o futuro dos filhos levando em conta apenas as conveniências sociais e financeiras.

    O assunto mais comentado, porém, foi como se apresentaram a noiva e suas damas de honra. Para surpresa geral, elas, em vez de muito emperiquitadas, como então era moda, puseram vestidos simples e cortaram os cabelos bem curtos. Assim, deram uma mostra da sobriedade e do desprendimento típicos do “tempo dos simples cidadãos”, que despontava no Brasil…

    As semanas seguintes foram de intensa felicidade para o casal e de grandes avanços em Pernambuco nos campos da economia, da justiça e da segurança pública. Mas, já no dia onze de abril, uma esquadrilha de naus portuguesas bloqueou o porto do Recife, e os problemas começaram. As exportações e as importações — principalmente, de alimentos, que vinham todos de fora — ficaram impedidas; a fome passou a trabalhar contra a República; e, em maio, um grande exército inimigo cruzou o rio São Francisco, vindo da Bahia.

    Então, Domingos, sabendo que as tropas pernambucanas, herdadas do antigo regime, eram muito mal armadas e despreparadas, resolveu enfrentar a tropa baiana pessoalmente. Porém, tendo sido sempre comerciante, sem nenhuma experiência militar, deixou a coluna sob seu comando ser surpreendida ao cruzar o riacho Merepe, em Porto de Galinhas, e lá foi aprisionado, no dia 12 de maio de 1817.

    No dia 19, o primeiro governo do povo brasileiro livre se dissolvia, no Recife. E, no dia 12 de junho, o capixaba era fuzilado, em Salvador.

    Seu último poema, dedicado à Pátria e à Maria Teodora, acaba assim: “Na morte, entre ambas repartido / será de uma o suspiro derradeiro / e da outra há de ser final gemido…”.

    Hoje, Domingos Martins é nome de rua, no Recife, e de cidade, no Espírito Santo. E em 2009 foi inscrito no “Livro dos Heróis da Pátria”, através de projeto do deputado federal Maurício Rands.

    Pernambuco libertário

    Domingos Martins, portanto, veio ao lugar certo para fazer revolução com a qual sonhava. Esta capitania era bem povoada e superava o Rio de Janeiro e a Bahia, em volume de negócios, um ano ou outro. O Seminário de Olinda era o maior centro de estudos do País, educando jovens e difundindo ideias democráticas desde 1800. A elite local orgulhava-se de ter expulsado daqui os holandeses, em 1654, e dois governadores lusos — Jerônimo Furtado, em 1666, e Sebastião de Castro, em 1710. E os pobres odiavam os portugueses, com quem frequentemente brigavam, nas ruas, em arruaças e distúrbios chamados de “mata-marinheiros”.

    Moda & revolução

    No seu casamento, Maria Teodora e suas damas de honra não se cobriram com penachos, lantejoulas, joias falsas etc., imitando as aristocratas europeias, como era o costume das mulheres ricas nos eventos sociais da época. Tampouco fizeram os tradicionais penteados imensos, chamados de “tapa missa”, presos com pentes de tartaruga, os “trepa-moleques”. Elas puseram vestidos simples, dispensaram as joias e cortaram seus cabelos “à la Tito”, bem curtos, como os cabelos das francesas dos tempos da “Grande Revolução”. As quais, por sua vez, copiaram o estilo das damas austeras da antiga Roma republicana.


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    Respeitado pelos ricos e amado pelos pobres, ele foi o líder moral da chamada “revolução dos padres”

    Como todos, no Recife, o padre João foi pego de surpresa pelos extraordinários eventos do dia seis de março de 1817. Ao saber que o governador português Caetano Pinto ordenara a detenção de vários membros da maçonaria, acusados de conspirar secretamente pela independência do seu país, ele se pôs a rezar, enquanto esperava que viessem buscá-lo, também. Mas o inesperado aconteceu.

    No quartel do Regimento de Artilharia, o valente capitão José de Barros Lima, conhecido como “Leão Coroado”, não acatou a voz de prisão dada pelo seu comandante, o brigadeiro Manoel Barbosa. Em vez disso, sacou a espada e o matou. Então, os outros oficiais brasileiros também se rebelaram; o povo pobre da cidade os apoiou; e a revolução programada para começar na Semana Santa, no próximo mês de abril, nasceu prematuramente.

    Nos dias seguintes tudo era prazer, tudo era alegria, com a massa festejando a liberdade nas ruas, quase enlouquecida. E o bom padre, felicíssimo, achava que a era da Igualdade, da Liberdade e da Fraternidade fora finalmente decretada no Brasil. Mas esse novo tempo ainda estava longe de chegar, como ele constataria muito em breve…

    CIÊNCIA E POLÍTICA

    João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro veio ao mundo no distrito de Tracunhaém, em 1766. Filho de uma família distinta, mas muito pobre, seguiu a carreira religiosa. E, sendo um hábil desenhista, tornou-se auxiliar do monsenhor Arruda Câmara, um grande naturalista e também um mestre na arte da política.

    O monsenhor vira de perto a “Grande Revolução” de 1789, na França, passando a disseminar seus ideais libertários por aqui, quando retornara. E o jovem padre, que o acompanhava nas suas expedições científicas, desenhando as novas espécies vegetais que iam sendo descobertas e catalogadas, tornou-se seu discípulo mais querido.

    Tempos depois, João Ribeiro esteve em Portugal, onde se associou à Academia Real de Ciências de Lisboa. Na volta, empregou-se como professor de desenho no Seminário de Olinda e começou a ficar famoso pela dignidade, generosidade e cortesia, além da vasta cultura. Mais adiante, tornou-se administrador do Hospital do Paraíso, no Recife, onde fundou a “Academia do Paraíso”, dando continuidade ao trabalho em prol da liberdade e da democracia iniciado por Arruda Câmara, morto em 1811.

    Segundo o comerciante Louis Tollenare, de quem ficou amigo, o padre João era “um homem pobre, mas bastante filósofo para desprezar a riqueza”, e “ninguém na Europa imaginaria haver aqui alguém tão sábio”. O francês, porém, o achava bondoso demais, desprovido da malícia necessária para atuar na política. E nos seus escritos profetizou que ele “se sacrificaria pela sua pátria, mas seria incapaz de salvá-la…”.

    GOVERNO MILAGROSO

    Quando a Revolução triunfou, foi proclamada a república e criado em Pernambuco um governo provisório, composto por cinco membros que representavam os comerciantes, os agricultores, os juristas, os militares e os religiosos — neste caso, João Ribeiro. E os homens de batina, os mais cultos e preparados numa terra de gente quase toda analfabeta, assumiram a administração pública.

    Com a máquina incompetente e corrupta herdada do antigo regime, teria sido o caos se não fossem, além do próprio Ribeiro, o padre Miguelinho, o vigário Tenório e frei Caneca, que operaram verdadeiros milagres. Em apenas dois meses o “provisório” conseguiu reformar o sistema tributário; preparou um projeto de constituição — a primeira, em terras de língua portuguesa; pôs uma gráfica para funcionar pela primeira vez, nesta província; criou a primeira polícia brasileira, eficientemente comandada pelo patriota Felipe Nery da Fonseca; e deu fim ao monopólio dos mascates portugueses no comércio de alimentos, que promovia a carestia e a fome. Só não acabou com a escravidão devido à resistência dos proprietários. Mesmo assim decretou a alforria dos cativos que se alistassem no exército, no primeiro ato abolicionista promulgado no País.

    O desenhista João Ribeiro, juntamente com o pintor José Alves, também criou para a república uma bandeira azul e branca com sol, um arco-íris, uma cruz e três estrelas que representavam Pernambuco, a Paraíba e o Rio Grande do Norte. À medida que outras províncias se libertassem novas estrelas seriam acrescentadas. E se mais não se avançou foi porque não houve tempo para isso.

    Batinas brilhando até nos campos de batalha

    O sonho durou pouco devido, em primeiro lugar, ao isolamento da Revolução. Alertados pelo ocorrido no Recife, os portugueses abafaram os levantes planejados para acontecer, também, em Salvador e no Rio, as outras duas grandes metrópoles do País. O segundo problema foi a falta de comandantes para as naus republicanas, pois os lusos jamais permitiram oficiais brasileiros na marinha de guerra. Em consequência, os portos pernambucanos foram bloqueados por uma esquadrilha inimiga, no dia onze de abril, e a fome grassou a partir daí, pois todos os alimentos aqui consumidos eram importados. Finalmente, as tropas locais eram despreparadas, porque os oficiais brasileiros, até então, eram impedidos de ultrapassar o grau de capitão na infantaria e na artilharia. E sequer eram aceitos na cavalaria e na marinha.

    Pois até na guerra os religiosos brilharam, tentando suprir as carências militares. Frei João Loureiro, guardião do convento dos franciscanos, por exemplo, assumiu o codinome “Cachico” e se tornou um destacado líder de guerrilha. Padre Antônio Souto Maior, subvigário de Tejucupapo, foi outro que se revelou um grande soldado. E por tudo que fizeram os homens de batina, o movimento de 1817 acabou ganhando o apelido de “a revolução dos padres”.

    No dia 13 de maio, porém, houve a derrota na batalha do Engenho Trapiche, ante o exército monarquista vindo da Bahia. As tropas republicanas, sob o comando do general Domingos Teotônio, retiraram-se, então, do Recife no dia 19, pretendendo prosseguir com a luta no interior. E o padre João Ribeiro as acompanhou, servindo de capelão.

    À noite, contudo, arranchados no Engenho Paulista, os líderes republicanos concluíram que a causa estava perdida. Não havia condições de seguir adiante e a coluna se dissolveu, com cada um tomando seu próprio rumo, em busca de esconderijo. João Ribeiro, no entanto, em vez de tentar fugir preferiu se matar, enforcando-se na capelinha do engenho.

    Mas a sua tragédia não findaria ali.

    Quando o vice-almirante Rodrigo Lobo, comandante do bloqueio, desembarcou e retomou a posse da capitania, sua primeira providência foi mandar exumar o corpo do padre, o mais amado e respeitado líder revolucionário, e expor sua cabeça na ponta de uma vara, no centro do Recife. E lá ela ficaria por dois anos, para intimidar os pernambucanos, que, no entanto, não se aquietariam e se rebelariam novamente em 1821, 1824 e 1848, em nome dos mesmos ideais libertários e democráticos defendidos por João Ribeiro.

    Religião no País

    “A religião é um estratagema para consolidar a dominação dos ricos sobre os humildes”, escreveu o francês Montaigne. E, para Napoleão, a religião era uma coisa excelente para manter as pessoas quietas. Mas, no Brasil colonial, isso era uma meia verdade. De início, os religiosos fizeram muito por Portugal, pregando ao povo tanto o amor a Deus quanto ao rei. Com o passar do tempo, porém, eles foram se abrasileirando, e do seu meio, pelo menos em Pernambuco, saíram revolucionários como Arruda Câmara, João Ribeiro, Pedro Tenório, Miguelinho e Frei Caneca. Dos 120 padres que havia aqui em 1817, aliás, cerca de 60 participaram da Revolução.

    A cabeça de João

    O crânio do padre João Ribeiro esteve guardado no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco, onde ficou exposto ao público até 2001, quando a diretoria avaliou que, daquela maneira, o castigo imposto a ele estava sendo perpetuado. E, considerando-se que sua morte e seu primeiro sepultamento se deram na capela de Nossa Senhora da Conceição, no Engenho Paulista, ele foi enterrado na igreja de Santa Isabel, também na cidade de Paulista, numa ação conjunta com o Governo do Estado, a Arquidiocese de Olinda e Recife e a prefeitura local. Que lá descanse em paz e continue nos inspirando.


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    Ele comandou a Revolução nos seus momentos mais críticos, e precisou tomar difíceis decisões

    O general Domingos Teotônio foi um dos principais líderes do movimento que, em 1817, tentou proclamar a independência de Portugal e implantar a democracia no Brasil. No início daquele ano ele esteve no Rio de Janeiro e na Bahia, na companhia de um xará, o comerciante Domingos Martins, e com seus irmãos maçons planejou o levante que deveria ser deflagrado naquelas duas capitanias e em Pernambuco, ao mesmo tempo, em abril. Mas a revolução nasceu prematuramente no Recife, no dia seis de março, e Teotônio foi eleito um dos cinco governadores provisórios da república aqui estabelecida, representando os militares.

    Em maio, porém, o quadro já estava péssimo, com os portos bloqueados por uma esquadrilha inimiga e as tropas monarquistas prestes a invadir a capital pernambucana. Então, os demais governadores elegeram-no “ditador” — ou seja, comandante único, com plenos poderes —, com a missão de encontrar uma saída para a crise. E, naquele posto, Teotônio se viu obrigado a fazer uma escolha dificílima: ou abaixar as armas, como queriam uns, evitando, talvez, muitas mortes inúteis, mas abrindo mão dos seus sonhos; ou prosseguir com a luta, como queriam outros, custasse o que custasse. Inclusive, as suas próprias vidas.

    Então ele pensou, pensou, pensou, e tomou o rumo que lhe pareceu mais acertado…

    RECRUTADOS À FORÇA

    Domingos Teotônio Jorge Martins Pessoa era branco, educado, “de família”, embora pobre, e muito respeitado pelos companheiros de farda. Mas já veterano, aos 38 anos de idade, estacionara no grau de capitão, porque os portugueses só muito raramente permitiam que os oficiais brasileiros ascendessem a postos mais elevados; e jamais quando se tratava de patriotas notórios, como no caso dele. Teotônio só ganhou o generalato e o comando geral das tropas, em Pernambuco, após a Revolução. E, de quebra, herdou um monte de problemas deixados pelo governo luso, como a falta de efetivos e de treinamento.

    Além das “milícias” da capital e das “ordenanças” do interior — corpos formados por voluntários civis —, na capitania havia apenas dois regimentos “de linha” (profissionais): o de Infantaria, sediado em Olinda, e o de Artilharia, no Recife. Ao todo, uns seiscentos homens, insuficientes até para o serviço obrigatório nessas duas cidades, com suas quatro fortalezas. E, embora a maioria dos oficiais fossem asseados e educados, os “mangas-lisas” (praças), cujo soldo não passava uma ração de farinha de mandioca e pouco mais de sessenta réis por semana, eram sujos e indisciplinados. Muitos roubavam, para manter suas famílias. Por isso, ninguém queria vestir farda. E para compor os regimentos, os portugueses, armados de cordas e correntes, caçavam recrutas, literalmente. Nenhum homem pobre estava a salvo, nem dentro das suas casas, e esse alistamento forçado era uma das maiores causas do ódio à monarquia e do apoio popular à Revolução.

    Mas, infelizmente, a Revolução decepcionou o povo.

    SEM TREINAMENTO

    Os republicanos começaram errando. Eles não engajaram nas tropas os voluntários do interior, que vieram se oferecer logo após o levante, ansiosos pela glória nos combates. Por isso, quando a luta irrompeu, de fato, já cessado o entusiasmo inicial, e era preciso cada vez mais soldados, foi necessário retomar o recrutamento à moda antiga. Depois, vieram os fracassos nos campos de batalha, devidos ao despreparo dos militares, a despeito da sua valentia.

    Já no primeiro enfrentamento, na Mata Sul, no dia 18 de abril, uma coluna revolucionária foi derrotada por uma tropa vinda da comarca das Alagoas, rebelada contra a República, com péssima repercussão no meio do povo. Adiante, no dia dois de maio, houve uma vitória no Engenho Utinga, na mesma região. Um batalhão comandado pelo general Suassuna bateu os jagunços e moradores reunidos por proprietários locais que, na maioria, eram monarquistas. Mas, no confronto com o exército inimigo vindo da Bahia, no Engenho Trapiche, no dia 13, o Suassuna também foi vencido.

    O quadro, então, ficou muito feio. A fome era grande, pois todo feijão, charque e farinha consumidos aqui vinham de fora, e o bloqueio dos portos impedia sua importação. A Paraíba e o Rio Grande do Norte que, de início, aderiram à Revolução e ajudavam, enviando alimentos, também retornaram aos braços monarquistas, assim como a maioria dos distritos pernambucanos. As tropas baianas e alagoanas que avançavam pelo sul, sob o comando do marechal Cogominho de Lacerda, a cada dia se aproximavam mais da capital. E as opiniões se dividiam sobre o que deveria ser feito.

    Degolar os portugueses e incendiar o Recife

    Na terceira semana de maio, muita gente no governo defendia a rendição já, em troca de condições vantajosas. Outros, porém, diziam que as naus do bloqueio não dispunham de soldados para tentar um desembarque; que o Cogominho ainda estava a muitas léguas de distância; que as tropas e o valente povo do Recife, assim como os de Olinda, Goiana e Igarassu, permaneciam fiéis à boa causa; e que a revolução ainda não fora derrotada.

    Então, no dia 18, o general Teotônio tomou, enfim, uma decisão: mandou dois embaixadores ao encontro do comandante do bloqueio naval, o vice-almirante português Rodrigo Lobo, oferecendo abaixar as armas em troca de anistia geral e do esquecimento de tudo. Mas a resposta foi apenas “submissão sem condições”.

    Teotônio insistiu. No dia seguinte despachou outro negociador, com um ultimato terrível: caso sua proposta não fosse aceita, ele degolaria todos os portugueses aqui residentes e incendiaria o Recife! Mas, supondo que o vice-almirante não cederia às suas ameaças, e sabendo-se incapaz de cumpri-las, nem esperou pela resposta. Enquanto o enviado negociava com Lobo, o general reuniu suas tropas e partiu à frente delas para o norte, pretendendo seguir com a luta no interior.

    À noite, porém, arranchado no Engenho Paulista, após uma longa discussão com seus oficiais, Teotônio concluiu que o sonho, de fato, havia acabado. E cada qual, por conta própria, deveria tentar fugir da repressão portuguesa, que se anunciava ampla, geral e violentíssima.

    Na manhã do dia 20, a coluna se dispersou. Nos meses seguintes, centenas de brasileiros bons e pacíficos foram presos, maltratados, tiveram seus bens sequestrados, e dezenas de líderes do movimento patriótico foram mortos. Entre eles, Domingos Teotônio Jorge, enforcado no Recife, no dia dez de julho, ao lado do Leão Coroado e do Vigário Tenório.

    A cabeça do general e as dos seus companheiros, “que pensaram o crime” de se rebelar contra a injustiça, e as suas mãos, “que executaram esse crime”, foram cortadas e expostas em locais públicos, e os restos dos seus corpos arrastados pelas ruas, atados a caudas de cavalos. Mas os exemplos deixados por eles permaneceram vivos e frutificaram em Pernambuco, nas décadas seguintes.

    Primeiro governo

    O governo revolucionário de Pernambuco, em 1817, o primeiro formado por brasileiros no Brasil, era composto por Domingos Teotônio, representando os militares; pelo padre João Ribeiro, representando o clero; Domingos Martins, o comércio; Manoel Correia de Araújo, a agricultura; e José Luiz Mendonça, a advocacia. O secretário era o padre Miguelinho, auxiliado por Frei Caneca e pelo vigário Pedro Tenório. E havia, ainda, um conselho formado pelos letrados Manoel Caldas e Antônio de Morais; o juiz Antônio Carlos de Andrada, o deão Bernardo Portugal, o negociante Gervásio Pires e o senhor de engenho Manoel de Carvalho.

    Uma lição para os dias de hoje

    Antes de a tropa republicana se dispersar, no dia 20 de maio, surgiu um problema: o que fazer com os cofres públicos, que estavam com ela? A solução encontrada foi devolvê-los ao novo governo, e para isso formou-se um pelotão de voluntários, todos conscientes de que seriam presos, em seguida. Quando chegaram ao Recife, os portugueses, espantadíssimos, quiseram saber o motivo daquilo. Por que, estando em fuga, com a cabeça a prêmio, eles não dividiram entre si o dinheiro, simplesmente? E a resposta foi: “porque nós vamos entrar para a História como revolucionários, não como ladrões”.


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